Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o primeiro de maio

Deveríamos refletir sobre que noção de trabalho adotar quando pensamos no que é um trabalhador. «Trabalho» está contaminado por um marxismo duvidoso, quando «trabalho» é sobretudo o que resulta em movimento. Já agora restringiríamos «trabalho» ao que resulta em movimento para diante. Embora ignoremos o que está adiante, portanto, não aplicaríamos «trabalho» ao movimento que visa regredir para estados anteriores do sistema, nem tampouco ao que visa, apenas, estabilidade. Este trabalho é o repouso o qual, se for imerecido, é a preguiça (ou, em casos extremos, coma). Quando o trabalho se aplica totalmente no sentido oposto ao movimento do sistema para diante estamos perante formas epopeicas de nostalgia cuja nocividade é difícil de avaliar. Na verdade, se iniciamos essa busca da felicidade mergulhando no regresso à boa natureza-mãe, chegamos às tribos de neandertais rumando de África para o norte e, ao assomarem na Europa inquirindo-se se é mesmo onde querem instalar-se. Se o movimento para diante for incipiente, então não é preciso uma grande força para produzir mais movimento retrógrado e poderemos imaginar as tribos de neandertais regressando a África e, mais para trás ainda, subindo às árvores como os outros símios. Podemos imaginar sempre mais para trás até às formas incipientes de vida cuja misteriosa simplicidade não compreendemos. Assim, no dia do trabalhador devemos pensar que muito do trabalho produzido alimenta vícios de consumo inútil, que delapida, que aliena e que, em muitas circunstâncias, mais vale ler um livro ou escrever um poema do que trabalhar nesse sentido de transformar esforço em fancaria de supermercado. Hoje muitos trabalhadores foram substituídos por robots: a natureza do homem liberta-se de uma economia espúria de trocas indignas; finalmente a ontologia total do homem sem necessidades, o pós-despojamento, a pós-saciedade e o trabalho virtual de cada humano pensando-se na sua humanidade aberta a tudo.

progresso e retrocesso

Quando nos conseguiremos libertar das simplificações marxistas?, ou que, ao menos, nos libertemos das simplificações em geral. Em especial, sobre os humanos as nossas opiniões vão longe demais como se cada pessoa fosse apenas ela mesma todo o tempo quando, na verdade, vai ao baile de máscaras, cobra impostos como profissão e é honesta embora, ocasionalmente se possa deixar subornar; também exibe um pensamento extremista e intolerante apesar de pregar paz e harmonia e continua a ser ela mesma para si e para os outros que toleram alguma discordância no caráter, tal como as faces de um diamante pertencem ao mesmo diamante e refletem diferentes aspetos consoante a parede da sala que é refletida. Há diversas formas de violência, mas são considerações que nos levariam a uma tipologia sociológica aborrecida. A violência só é interessante a nível individual. É onde os motivos se entrechocam, é onde balanceiam as apreciações e as atitudes se desestabilizam, é onde um cobarde se transforma em herói (público ou circunscrito ao seu anjo da guarda), é onde a vida que se arrisca se lança contra as muralhas do dogma, da calúnia, da mera injustiça, atira-se seja contra o que for. É um momento único essa clarividência ética: como se a pessoa tivesse toda a nação observando-a, séculos historificados, e ela, só, desdobra-se em mil personagens de si cada qual com a sua noção de heroísmo e, ainda assim, uma, a mais incerta, poderá ser a de maior mérito e ser ou não ser a seguida. Onde está, nesse momento, a luta de classes se ela pertence a todas as classes e o seu heroísmo pode ser um gesto conservador e tradicionalista? Onde está a dialética hegeliana do avanço para a utopia se os antibióticos, o futebol, a mecânica quântica e as redes sociais, tal como a guerra nuclear, estão fora de uma teoria da história? Perguntamos para que serve a violência, qualquer forma de violência, mesmo a cadeira elétrica ou a chibatada pública. Corrige? Não. Atemoriza. O medo é marxista? Não. É uma forma básica da ordem social.

a sabedoria dos sábios não é estimulante, mas é sólida

De um lado, uma voz fala sem parar das coisas mais importantes para a humanidade futura. O ouvido direito mal a ouve. O esquerdo ainda menos, ambos apenas filtram a redundância. Eu não sei o que pensar entre pensar tudo tão fluentemente como essa voz e silenciar-me e ver o que não desaparece. Sei que existem doenças no conteúdo da voz e que não tenho nenhuma doença ativa; que me silencio porque não tenho medo da humanidade que fala demasiado nem tenho medo das coisas que ela vislumbra e de que não fala. Penso diferentemente da voz à minha esquerda e, no ouvido direito, o meu silêncio é diferente porque é uma recusa do peso e do lixo. Quase tudo é peso e lixo. Outras vozes falam do que falta no que já existe, outras ainda do que está certo e deveria ser norma, ou do que é chocante e deveria ser interdito. Mas o problema são as que reivindicam ser os agentes da sua própria transformação; pedem pastilhas que as façam ser de uma forma ou de outra consoante lhes apeteça, rir, ter visões e acreditar numa utopia que desapareça depressa, ou quedarem-se numa contemplação neutra e absoluta, sem chegarem ao seu próprio silêncio. Ninguém sabe o que lhes responder. A questão parece ser o que fazer com tudo o que agora se tornou possível; devemos experimentar e confiar que sejam limitados os nossos erros? Mas quando se tornam hegemónicos, todos os seguirão. Deixarão de ser erros, mas continuaremos a ignorar o que se seguirá. A voz à minha direita está embasbacada, incapaz de medir as trajetórias e os impactos das ideias como se acreditasse que, por um desígnio inlocalizado, coincidissem numa figura da bondade que ainda conseguíssemos reconhecer. O meu silêncio significa apenas que não tenho opinião, que não uso pastilhas porque prefiro assegurar a estabilidade do sujeito na escrita. Não sinto necessidade de me alterar para alterar a escrita; ela escreve-se com os seus próprios vaticínios tal como os meus sapatos tentam uma harmonia entre os passos e o solo que pisam. Não tenho outras próteses apensas ao corpo além de um pequeno ciclomotor. Para me elevar apanho um ascensor, não tomo alucinogénios para escrever um poema nem pastilhas para dormir, pois é na insónia que escrevo o poema. Mas isto não significa que recuse as coisas importantes que a voz menciona, simplesmente penso longamente em cada uma e o que penso, por ser inconclusivo, confere-lhes uma aura de lentidão que a faz familiar como «a volta ao mundo em 80 dias». A «natureza humana» é uma falácia para oportunistas éticos como Lewis Carrol, mas gostaria que a voz à minha direita lhe reescrevesse os livros pois acho-a semelhante ao pássaro dodó que achava benigna a humanidade que o aniquilou. Não condenamos a humanidade pela extinção das espécies à medida que o universo se moderniza; deixamos que as coisas sigam uma inclinação que dizemos «natural» e que inclui tudo o que nos poderá transformar noutra coisa que desconhecemos. Mas o tempo é a qualidade do triunfo, não um juízo de valor. Obsolescência é a qualidade do que esqueço, mas na memória nada parece desaparecer, antes continua naquilo em que me torno.