Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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SOBRE O CONTEXTO DO POEMA, COMO É IRRELEVANTE  

O último poeta romântico embebedava-se três noites por semana por uma rotina literária essencial como afiar o bico ao lápis de escrever. Provavelmente não aguentava a falsa intensidade emotiva que inventava para a sua poesia. Era geograficamente centrada num paraíso com crimes de honra, animados arraiais com balões de fogo, barafustantes tiros para o ar e sonoras disputas sobre a reencarnação. As canções festejavam os mortos como se ali estivessem, já impossibilitados de malfazer e de caluniar os vivos, simples presenças como as pessoas que viajam connosco no metropolitano que nem sequer são simpáticas nem se sentem obrigadas a sê-lo. Havia um evidente excesso barroco na decoração dos seus poemas. As metáforas resultavam inúteis porque toda a narrativa era metafórica, embora indistinta de qualquer ideia forte; uma sensorialidade de sexos palavrosos como cios de flores esdrúxulas ocupava o centro do palco. O poema como circo noctívago das imprecações, como firmamento anterior às insaciáveis cópulas, como ladainha antiquíssima aos viris progenitores que se ausentaram. Assim todos compreendiam que se embebedasse: os seus versos não deixavam esperança, a sua música exigia que o coração se exaltasse, sempre disposto a tudo, até a assassinar, até a recuar a vingança para uma ocasião sagrada e ser, então, implacável – ou perdoar. Imaginamos existir outro mundo onde o poeta tomasse o pequeno almoço com a mulher e o filho, onde a linguagem simples de preparar uma festa de aniversário ou preencher um documento fiscal, funcionasse em pleno, mas, caso existisse, esse mundo privado seria um mero direito formal que decorria de uma condição humana que o poeta achava crua, mecanizada, desnaturalizada e, assim, inevitavelmente destinada a destruir o planeta. Recusava-se a viajar: o mundo é excessivo para um poeta, dizia; os seus lugares não correspondem à definição de «poesia», as suas gentes não correspondem à amizade que gostaria de lhes dedicar. Apenas o álcool e a música dos lugares o interessavam. Mas isso vende-se nos supermercados. Esta facilidade de o último poeta romântico cumprir o seu destino aniquilou o seu romantismo antes de uma cirrose sobrevir.

a razão literária

A literatura não se interessa pelas coisas. Não circunscreve os fenómenos, não isola factos, não os vê sucederem-se, não encadeia efeitos e, assim, é incapaz de descortinar por trás da variância a beleza epigenética de uma equação. É fácil para o escritor tirar conclusões de uma narrativa, não tem como o carteiro, de entregar cada mensagem no endereço correto, passeia pela cidade ou estaciona numa esquina como uma prostituta. Não o condenamos pela leviandade do seu pensamento nem pelo abuso do que afirma, antes lhe pedimos que não nos queira convencer nem amar, mas que se ofereça pois estamos dispostos a pagar o que nos pedir – apenas para que se deixe admirar. A literatura é um corpo que todos usam, uma mãe de todas as mães, incluindo as mães maltratadas toda a vida, as que geraram fetos implantados, as que viram os filhos definhar e, também, as mães que abandonaram, que partiram com os amantes para recomeçar a vida com limpidez. Estas acreditaram na felicidade. Mesmo que o escritor não se interesse pela felicidade é importante nunca lhe fechar as portas. É um tema sobre o qual as pessoas gostam de divagar e algumas julgam ter ideias próprias. A felicidade ignoramos do que vem: 1 ) se de uma forma de olhar as pedras, apreciar-lhes as minúcias e os desgastes, ler delas o destino pobre e, ainda sem estabelecer comparações, beijá-las e deixá-las no seu lugar, 2) se de um aparelho desejante pouco exigente e auto-saciador, 3) se de uma arreigada convicção na própria simplicidade, 4) se das precauções colocadas na fala quando alude aos entes que voam e são livres e plenos, 5) se da capacidade de amar as coisas e as pessoas sem contar o seu mérito e utilidade, 6) se de uma euforia que se alimenta da sua desrazão, 7) se de um consciencioso encantamento, voraz como o fundo de um lago à noite, com a vida que cada dia ressurge, 8) se da pura convicção na força, não como um potencial de realização, mas como modo de uma saciedade realizada. Sim, a literatura, mesmo a de ficção, interessa-se pela sucessão de planos, pela sua desordenação temporal ao sabor de uma ordem que não é humana nem existe nas coisas – é literária.

sobre a infância e o desespero

Charlot e Picasso, contudo, mal reagiram quando Sylvia Plath lhes morreu nos braços. Parecia representar. Nos poemas, o destino inscreve-se inconscientemente, pensaram. As impossibilidades da mulher-total: desvelados os mitos da fecundação, ainda assim, levar a denúncia a uma apocalíptica poesia. Como uma tela sublime mantida na escuridão, julgou Picasso, como o guião nos incendeia e nos perdemos do que acreditamos, murmurou Charlot. Odiaram-lhe o marido: todos os poetas implacáveis do próprio narcisismo deveriam morrer por exaustão recebendo uma ovação que não acabasse, que não os deixasse dormir, nem comer nem escrever. A ela a pergunta que lhe fizeram foi onde ancorar a poesia? À época, grandes navios vindos da Europa levavam para os novos continentes os cidadãos escorraçados. São sempre grandes filhos-da-puta quem define os desalbergados do destino. Sempre se deportaram populações inconvenientes, agora era os que escaparam do extermínio. Tentava-se um equilíbrio nos ventos do destino (quase toda a França colaborara, mas vinha com os vencedores; era o pós-guerra). A ocasião desfez-se num sismo de células sangrantes. Frias. Endinheiradas ou comunistas, onde cabem as múltiplas significações do horrendo senão num grande intervalo entre as nuvens? Estas são as condições à nascença, inegociáveis, claro, por isso, podemos nunca desculpar quem nos fez existir em má ocasião. O real é um bem social, um laboratório espontâneo onde a televisão processa conveniências. Os pais não podem ignorar as circunstâncias. Uma poetisa é um caso especial do existir: ela é a catálise do real. Charlot e Picasso comentavam-lhe os poemas. Charlot tentava devolvê-los à mudez, recuperar com o burlesco uma noção de esperança a qualquer preço, mas não existia esperança na poesia dela. Era preciso uma pirueta e um inimigo reconhecível, não o marido nem o fantasma do pai, uma generalização já incompatível com a linguagem. Picasso estava na fase das tauromaquias; conhecia os riscos no trilho do suicídio. As suas pinturas corriam riscos poéticos. Todas as mulheres eram Sylvia e o poeta laureado, o touro brutal, o raptor tresloucado dentro de si, imperialmente, o seu cinismo refinado. Quando ela apareceu, tinha tomado uma sobredose de barbitúricos e cheirava a whisky, uma excessiva autenticidade, pensaram, mesmo para uma poetisa. Compreendera os mecanismos do mito: deixar-se dominar e sucumbir no extremo do desespero era o seu tributo ao amor, um limite da fecundação.