Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

CADA PESSOA COM O MUNDO ÀS COSTAS  

Algumas pessoas melhoram da saúde, outras pioram; a maior parte piora de uma forma passiva, envelhece e deteriora-se como um carro velho mal estimado ou como uma casa centenária cujo telhado o vento estragou. É uma forma de pioria material e orgânica, sem grande valor moral. A maior parte das pessoas envelhece e piora pela entropia do sistema, sem mérito e sem culpa. Contudo, algumas pioram ativamente, não tanto porque bebem e fumam excessivamente, mas por uma vertigem negativa que procura encontrar na perversão da vida uma resposta à própria vida. Não podemos dizer que seja um território infértil. Árido, mortífero, ameaçador como qualquer caminho que se anuncia sem retorno, mas no hercúleo limite onde o corpo falha encontramo-nos titanicamente com o mundo às costas e tanto podemos deixá-lo tombar como levá-lo à glória. Com o mundo às costas sentimos o seu peso e a sua inércia, sentimos quanto custa aos que o habitam protegerem-se das vibrações que os empurram para às coreografias mortuárias típicas. Parece podermos decidir quem passa adiante e quem morre, podermos redistribuir a fertilidade dos solos e a das famílias, até fazer que os ónus da reprodução sejam saldados, corrigidas as diatribes da história e que todos os humanos possam acabar a vida como filósofos generalizando sobre os temas da felicidade e do niilismo.

as necessidades semânticas

Aplicar «higiénico» ao objeto «papel» para mencionar o dispositivo usado na remoção do sujo do corpo parece exagero. Deveríamos reservar a designação de «papel higiénico» para pessoas ou instituições cujo desempenho (papel) foi notável a favor da saúde humana. É esse o sentido de «higiénico», promover a saúde, dos humanos em particular, no sentido da boa vida e da felicidade. Claro que este desiderato passa pela limpeza dos odores pestilentos, mas coube a Pasteur chamar a atenção que as lavagens deveriam incluir a neutralização de inúmeros agentes patogénicos inodoros, ou seja, que não nos devemos restringir a limpar as zonas que se contaminaram com o sujo das fezes, mas lavar as mãos, e os dentes, e a cabeça que muito facilmente se contamina com ideias inúteis, e lavar o corpo todo, e lavar tudo. A Pasteur, merecidamente pelas suas descobertas, aplicamos a designação de papel higiénico ao muito que lhe devemos, mas não a Rabelais que salientou o conforto das penas de pato limpando, nem ao industrial americano que patenteou no final do século XIX um papel perfurado e vendido em rolo que veio a globalizar-se como dispositivo de limpeza. Contudo, é preciso não esquecer os esforços anteriores para manter esses orifícios limpos, seja com folhas de hortelã, areia, trapos, farrapos e serapilheiras, etc. e nunca dissemos hortelã higiénica, areia higiénica, trapos higiénicos, farrapos e serapilheiras higiénicos pois «higiénico» é de uso recente e desde muito antes se usa limpar o ânus sem que isso represente saúde e felicidade. Portanto, «higiénicas» são as vacinações e as campanhas para a salubridade da água e «papel higiénico» deverá designar apenas o desempenho dos políticos cuja demagogia faz as pessoas julgarem-se felizes.

a falta de saúde

Quando nos dizem que falta alguma coisa para o corpo bem funcionar, alarmamo-nos. Seja mais sangue, mais inteligência, mais insulina, mais calma, seja o que for que nos falte e esteja além da nossa ação. Que, portanto, não é como a cultura, a amizade, a magreza ou a virtude, que podemos cultivar e nos responsabilizamos se falta, mas isto que falta alarma-nos porque conhecemos a coisa que falta apenas pelos efeitos da falta. Depois, dizem-nos o que devemos fazer e percebemos a complexidade do universo manifestar-se em todas as escalas: ao nível de um planeta em cuja atmosfera o oxigénio escasseia e no indivíduo que respira com dificuldade e pouco oxigénio chega ao cérebro; ou numa gravidez que aborta; ou numa estrela que arrefece e, num seu planeta, a vida que estava num estado embrionário, provavelmente não conseguirá continuar a desenvolver-se. Esta ideia de desenvolvimento e progresso está latente na nossa ideia de vida e, por isso, faltar alguma coisa ao corpo de uma forma inexorável põe em causa a dinâmica do universo: as matérias que se querem expandir no núcleo do planeta irromperem na sua crosta em milhões de vulcões simultâneos como uma varicela ou como se os órgãos se extrudissem pelos poros como por uma tremenda hipertensão interna e, do avesso, o planeta degenerasse. Ainda pior seria os planetas desorganizarem as suas órbitas e colapsarem uns nos outros e, depois, na sua estrela-mãe; esta, noutra estrela e noutra, e noutra, e o universo, em vez de se expandir, regressasse à dimensão de um ponto que não tem dimensões e, sem dimensões o espaço não existindo, assim, o ponto, tendo perdido a sua localização, também não existe: o universo teria regressado ao nada. É o mal absoluto que esperamos nunca atingir, apenas tentamos compreender o mal ou a doença a partir de noções básicas como a sua origem e para onde nos arrastará. Perguntamos se o mal é genético. Claro que queremos desculpar-nos atirando com as causas para algum momento de um passado como se expiássemos uma culpa e, deste modo, ilibamos a nossa vontade de normalidade; ou perguntamos se fomos contagiados por um agente anacrónico (no sentido em que nos excluirá da escala do tempo); ou por uma entidade enigmática contra a qual é impossível lutar (um cancro, um espírito) e mais vale dedicarmo-nos às medicinas alternativas.