Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

DE DENTRO DO CORPO COMPREENDE-SE TUDO

DE DENTRO DO CORPO COMPREENDE-SE TUDO   Malgrado toda a psicologia que pomos no assunto, ainda hoje é difícil avaliar o que viabiliza o amor. Vemos juntas pessoas muito felizes, outras que se detestam e sofrem julgando ter razão, outras ainda que definham consumidas pela desesperança do abandono. Algumas usam o amor para simplesmente procriar com entusiasmo, mas também existe quem abuse do entusiasmo de quem quer procriar. Portanto, é difícil ainda, sequer, listar os fatores que condicionam a coesão de uma relação bem como os que a minam. Tal como é difícil avaliar a veracidade de muitas coisas, é inconclusivo distinguir em cada género as estratégias implicadas nas relações. Por exemplo, como um vulgar sociobiólogo, contabilizar oócitos e espermatozoides e criar paradoxos com as desproporções. Porventura, a principal caraterística biológica da espécie humana é ter anulado o impacto do sexo nos comportamentos de acasalamento. Tendemos a atribuir à cultura estas conquistas cívicas que prezamos muito, mas ignoramos se danificarão procedimentos reprodutivos que evoluem há milhões de anos. Agora conhecemo-nos demasiado bem e amamo-nos ou destruímo-nos com maior eficiência, embora com os efeitos mais limitados juridicamente. Se tivéssemos que refundar uma teoria geral do amor, consideraríamos: 1) modular o papel das grandes forças que determinam a paixão e que liquidam a paixão; 2) regular o papel do acaso sobre uma libido convexa, em qualquer caso, adoçando os impulsos, demasiadas vezes, incontroláveis; 3) o papel do acaso e dos seus acidentes meteorológicos e sociológicos: todos os casais deveriam ter direito a uma lua-cheia espampanante na noite do primeiro encontro e, no regresso, a uma greve nos transportes públicos. No capítulo 1, veríamos cada molécula do universo ensaiar formatos de aglutinação com outras moléculas de modo a criar estruturas crescentemente mais complexas que implicam teorias de outro nível, também crescentemente mais complexas. Tem-se designado por «natureza» esta furiosa organização que desconjunta, congrega ou reconjunta as moléculas com um cimento muito coesivo designado «amor», uma tendência geral da matéria para ciclos de complexidade/caos. Esta humanidade escreve poesia e códigos e teorias e constrói monumentos para sua própria glória, constrói também, bombas nucleares e vive na eminência de uma guerra que reduzirá a cinzas a complexidade alcançada. Porque existem limites para a complexidade: quando se atinge um teto de beleza ou de justiça e perfeição social ou de harmonia e sintonia com alguém ou com tudo, o nosso cérebro não aguenta e destrói tudo para não se desfazer ele mesmo. No capítulo 2, a libido é um camaleão com insónias sempre à espreita de uma distração para saltar sobre o escaravelho-fêmea que acabou de devorar o macho com quem copulou perante o sociobiólogo estupefacto; procuramos metáforas para o acaso, uma dor numa cadeia de alienantes pressuposições. No capítulo 3, assistimos ao inexplicável e ao hipercomplexo, meros efeitos de escala. Os nossos olhos são um filtro demasiado claro: as coisas surtem evidentes, sem lugar para a espessura metafísica da transcendência: as nuvens simplesmente aglomeram-se, carregam o céu de um negro elétrico insuportável e negativo que o acaso desfaz em relâmpagos. Está tudo dito e se nos abraçamos é porque temos medo e nos queremos proteger. Se passada a tempestade, uma lua-cheia espampanante aparece, logo tomamos a situação como prenúncio de um bom augúrio e mantemo-nos abraçados omitindo que o início da situação foi uma tempestade que achámos temível. Mais tarde, quando numas curtas férias românticas, se depara com uma greve da aviação, percebemos o logro e repensamos tudo ao contrário: a tempestade e o medo como mau augúrio e concordamos em acabar a relação que julgámos eterna. Nisto os grandes amantes adotam uma escala trágica: com uma abrangência poética duvidam de tudo o que lhes parece evidente: do amor que aglutinou as nuvens e deu espessura ao céu. Estas, cobrindo a lua-cheia, criaram a ocasião de um abraço. Tudo isto que acontece são peripécias de forças irónicas que procuram equilibrar-se e nos arrastam para um destino. Tanto podemos dizer que pensamos demasiado como que pensamos mal ou que falhamos as coisas verdadeiramente determinantes ou que nada é verdadeiramente determinante e as coisas que como tal se afiguram são aglutinações de factos simples como o amor que, tal como nos uniu e às nuvens, também pode apagar-se sem o aparato de uma trovoada.