Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

SOBRE A COMPREENSÃO  

Dissociando a palavra da convicção, desviando esta do alarido cósmico que me salpica, o que uso de cada palavra são noções puras e inapropriáveis na sua unidade singular. Estar só desapropria a existência da sua imediata utilidade envolta de sensações: já não podemos concebê-la simplesmente porque estamos vivos e assim nos sentimos, i.e., estar só faz as coisas reverberarem, umas centrípetas e nítidas, outras saltam como os salpicos das vagas se libertam de uma unidade que só fez sentido momentâneo numa intenção ou num sorriso imperceptível. Tal como os campos na primavera e as fábricas sem parar, o meu pensamento produz o seu próprio lixo. Não o controlo – principalmente ao lixo difícil de reciclar: os pensamentos antecedentes cindem-se e mesclam-se com fragmentos de outros, cada um um foguetão ou uma flecha intencional autónoma e desregrada que numa muda fala interior logo se estilhaça. Alguém ouve ou não ouve, mas quando se está só o que percebemos como medo é um pó velho que dança ao espelho do sarcófago e, tal como o gato do Schrödinger, ignoramos em que estado nos encontramos. E não se trata de uma mera questão linguística: ora nos pensamos dentro da plausível realidade do devaneio, as palavras atropelam-se como quando perseguimos cavalos espantados e é noite, ora nos julgamos perante um aspeto surpreendente e teremos de repensar as coisas desde o princípio incluindo a própria forma do pensamento. O ponto importante é o que a linguagem faz de nós; a capacidade de acreditar torna-nos crédulos e, se a quantidade dos conhecimentos duplica em cada década, torna-nos céticos ou indiferentes. Quando encontramos alguém que nos escuta, as palavras tresmalhadas agrupam-se em torno de verbos que, em dada altura, nos parecem adequados e, se nos enganarmos, esperamos que essa pessoa nos corrija.

as imagens substituem e desaparecem

«Uma nuvem galopa numa pradaria azul e o seu rumo nem o vento o conhece»: é claro que um valor referencial que procurássemos se perdeu na música das imagens, mas dizer que o vento não impulsiona a nuvem exige de nós um especial esforço de leitura conquanto esta terá o corpo atuado por forças que, não sendo o vento, não imaginamos quais sejam. Assim a música tropeça numa dissonância grosseira ou, em alternativa, obriga-nos a aceitar que a nuvem tinha um dispositivo interno semelhante a uma vontade o que implicaria mecanismos poderosos responsáveis pelo aspeto dos céus em certos dias de primavera quando a luminosidade é tão intensa que temos de, por instantes, fechar os olhos e, quando os reabrimos, já a nuvem avançou no seu movimento como se galopasse numa pradaria azul. Poderíamos defender que não existem metáforas ou que, tal como as nuvens brancas do verão desaparecem no firmamento, também os termos da metáfora logo se reconfiguram num sentido próprio com um grau de realidade superior ao de uma imagem. Quando enchemos com hélio um balão, haverá um momento em que a criança tende a ir pelos ares – é a dificuldade da poesia: manter os pés na terra quando as suas palavras se elevam entre abstrações sempre mais poderosas. São inevitáveis os momentos em que os pés se soltam do seu peso. Numa sinfonia todo o ruído da existência, incluindo o tráfico da cidade, os seus patéticos concertos de rua nas noites de sábado, os mecanismos das fábricas e os tratores pelos campos sobrepondo-se ao chilrear dos pássaros e aos ruídos da água nas pedras do riacho, todo o ruído dos sentidos e todo o ruído do nosso próprio corpo se alienam das suas significações, até da melodia que dizemos existir quando estamos otimistas com a situação do mundo. Quando as significações esvanecem e dizemos «É música» é porque os sons se reconfiguraram e entram na mente para um mundo com outro tipo de erros e imprecisões.

uma botânica metapoética generalizável a toda a literatura

Quando escrevi um livro sobre a razão de ser das coisas tinha uma convicção apenas: que o absurdo é passear num jardim botânico sem tabuletas: nem o nome latino, nem o nome vulgar, nem a origem geográfica. Portanto, a questão impõe-se: poderemos pensar o mundo com a origem das espécies suspensa sem que as nossas especulações esbarrem numa opaca ignorância? Miramos uma árvore de alto a baixo, provamos os seus frutos, examinamos a relação dos seus ramos com os pontos cardeais; observamos como as aves pousam, como as primaveras que foram absorvidas ao longo de décadas deixam, agora, os minutos soltarem-se dos perfumes de modo a recomporem o próximo outono. Numa árvore exótica causa ainda maior estranheza sentir como a estatura serve a floração. Sentimos a mesma atração pela inutilidade de pensar a origem. O nosso cérebro, ao pensar uma árvore exótica, sente absurdo pensar a engenhoca da árvore, da seiva até à copa, do húmus das raízes até à clorofila ávida da luz do amanhecer. O nosso cérebro pensa o futuro, sofre pensando a razão de ser das coisas. O aborrecimento é pensar como um genealogista quando as direções estão contidas no propósito: não é a razão de ser das coisas que orienta o propósito, mas este que se estabelece da harmonia e de uma esporádica violência estratégica e, assim, cria a razão de ser. Claro que todos os seres comparticipam no resultado final que, como sabemos hoje, pode acontecer da pior maneira. Mas o meu livro não se ficou por aqui. Precisei de descobrir a razão de ser do desalinhamento dos propósitos: porque é que, num jardim botânico, os raios de luz descem sobre ausências e porque não são irrelevantes essas ausências. Dir-se-ia que os fotões têm uma memória amorosa e que se desagregam contra as árvores sem nome como se, a nós, a razão de ser das coisas, se a conhecêssemos e não a construíssemos, passearíamos numa vida sem absurdo, apenas conferindo o nome das coisas, verificando se as morfologias correspondem aos propósitos.