Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a falta de saúde

Quando nos dizem que falta alguma coisa para o corpo bem funcionar, alarmamo-nos. Seja mais sangue, mais inteligência, mais insulina, mais calma, seja o que for que nos falte e esteja além da nossa ação. Que, portanto, não é como a cultura, a amizade, a magreza ou a virtude, que podemos cultivar e nos responsabilizamos se falta, mas isto que falta alarma-nos porque conhecemos a coisa que falta apenas pelos efeitos da falta. Depois, dizem-nos o que devemos fazer e percebemos a complexidade do universo manifestar-se em todas as escalas: ao nível de um planeta em cuja atmosfera o oxigénio escasseia e no indivíduo que respira com dificuldade e pouco oxigénio chega ao cérebro; ou numa gravidez que aborta; ou numa estrela que arrefece e, num seu planeta, a vida que estava num estado embrionário, provavelmente não conseguirá continuar a desenvolver-se. Esta ideia de desenvolvimento e progresso está latente na nossa ideia de vida e, por isso, faltar alguma coisa ao corpo de uma forma inexorável põe em causa a dinâmica do universo: as matérias que se querem expandir no núcleo do planeta irromperem na sua crosta em milhões de vulcões simultâneos como uma varicela ou como se os órgãos se extrudissem pelos poros como por uma tremenda hipertensão interna e, do avesso, o planeta degenerasse. Ainda pior seria os planetas desorganizarem as suas órbitas e colapsarem uns nos outros e, depois, na sua estrela-mãe; esta, noutra estrela e noutra, e noutra, e o universo, em vez de se expandir, regressasse à dimensão de um ponto que não tem dimensões e, sem dimensões o espaço não existindo, assim, o ponto, tendo perdido a sua localização, também não existe: o universo teria regressado ao nada. É o mal absoluto que esperamos nunca atingir, apenas tentamos compreender o mal ou a doença a partir de noções básicas como a sua origem e para onde nos arrastará. Perguntamos se o mal é genético. Claro que queremos desculpar-nos atirando com as causas para algum momento de um passado como se expiássemos uma culpa e, deste modo, ilibamos a nossa vontade de normalidade; ou perguntamos se fomos contagiados por um agente anacrónico (no sentido em que nos excluirá da escala do tempo); ou por uma entidade enigmática contra a qual é impossível lutar (um cancro, um espírito) e mais vale dedicarmo-nos às medicinas alternativas.

independentemente de existir, Deus é benéfico para os sistemas?

Não vamos pôr a questão da forma arruaceira (Deus existe ou não existe?), pois uns responderiam: «Claro que sim» enquanto outros viriam com a incompatibilidade divina com o mal, com as guerras, os sismos, as doenças, ao que os primeiros responderiam cinicamente tratarem-se de meros sistemas de regulação de forças, que o mundo não é para ser dito por filósofos nem por teólogos sem fé – deverá ser visto suficientemente do alto como fazem os astrónomos, os astronautas, os poetas e, também, Deus. Visto do alto, o mal não se distingue do bem: são estados do sistema e o sistema muda para um próximo estado de uma forma estocástica, independentemente do mal ou do bem. Os que dizem «Deus existe» acreditam que o sistema solar não desaparecerá ou que, caso desapareça, haverá tempo para a maior parte da humanidade emigrar para outros lugares da galáxia; os que descreem vivem em sobressalto, pois cada vez há mais ocasiões para um cataclismo totalmente devastador. Porque haveria a humanidade de sobreviver, perguntam, e, embora descreiam, ouve-se Deus pensando o mesmo: «Porque hei de fazer sobreviver a humanidade que é uma espécie tão corrosiva?, que ora me abandona ora me venera insensatamente, sempre atribuindo-me novos formatos. Esqueceram a minha voz no Antigo Testamento: a piedade é a autoindulgência de um deus para com os seus fracassos de criador de humanidades. Esta humanidade autonomizou-se de mim, vai perder-se e nem Cristo a salvará». Não há uma prova objetiva da ação de Deus sobre os sistemas, enquanto é bem visível a ação corrosiva (como o próprio Deus reconhece) da humanidade sobre o seu planeta. Como fundamentar uma esperança senão na ação do próprio homem?, que os conflitos de interesse se resolvam em paz, que mais ninguém pense em guerras nucleares nem em matar, que as questões de fé não sejam mortíferas e, sobretudo, que o consumo não nos destrua. Assim, o impacto divino a dar-se (no caso de Deus existir) limitar-se-ia à conservação das almas até ao final dos tempos e ao acesso a uma prometida felicidade eterna; no caso de Deus não existir, embora mais lógico e fácil de explicar, o sistema perde sentido: as procissões e os templos, meros símbolos de como se engana o nosso cérebro, de como se deixa mover em tarefas indómitas por convicções insustentadas. Deus é um aviso para que não nos destruamos.