Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

SOBRE A PERPLEXIDADE DO ESPETADOR DO MEU SONHO

São os atributos do sonho: julgamos aceder ao teatro de Sófocles e assistir ao diálogo primordial sobre o que se passa num útero ou num abrigo antinuclear ou entre desconhecidos que perderam o comboio, personagens necessariamente indefinidas. Submetem-se ao mito do que as antecedeu. O espetador deve anteceder o sonho, olhos esvaziados pela distensão do acontecer na própria clausura da liberdade. A liberdade desfaz-se no labirinto indecidível do sonho – e refaz-se no labirinto de todas as razões: cada instante desagrega-se do seu fluir, a personagem perde identidade ou a identidade exibe uma colagem de estilos – patética na mudez da noite. Noite agitada pela correria, nem fuga nem susto, todas as portas fechadas, todas as ruas, bloqueadas por avalanches de pesadelos num espaço inominado escorrendo para um paul onde todas as palavras colapsam. Espécie de jazigo cujas sílabas não rimam em noite lata e síncrona, antes demoram e sugam da memória corpos idos que a personagem esconde do espectador do sonho. Na consciência, a plena transparência do anti-Sófocles de quem a linguagem se despoja não faz de mim o outro, o da minha voz estremunhada, mas o do enigma moral da liberdade com o seu fogo impenetrável. Quando a mente recomeça, remenda o real roto na atmosfera, eu caminho com a carga farta do desejo e da frustração. A mente desdobra-se sobre os coros da perplexidade e aparece a vagabundagem por uma infância clivada que se diz minha. Retomo a materialidade aeronáutica das coisas, retomo o mito de mim, rasante e insosso. Retomo a narrativa de mim num autómato que pareço eu servindo-me do anjo parvo que atravessa o espelho, o espectador, o tempo, a personagem, e se perde numa intuição. Isto que descrevo nunca pôde ser pensado nem intuído antes de escrito nem o que me supre jamais transparece senão na chuva encalorada de uma negação de mim. Como o vento esculpe e liberta a energia da vaga, o que me movimenta no poema são meros aspetos de uma memória que odeia o vazio. Acordo como o mar se evapora, digo «vida» do teatro etéreo das férteis palavras do sonho que a representação tornou inverificáveis.

O AR DE FAMÍLIA  

É preciso observar cuidadosamente os próprios sonhos. Eles mostram-nos uma engrenagem que liga o passado mais primitivo (até o anterior ao ser e ao pensamento), ao futuro mais distante (até àquele que já não nos está reservado). Os sonhos irradiam de um livro comum, tal como os outros órgãos do corpo, por isso, eles continuam-se de noite para noite, eles completam-se como um teatro que não sai de cena, as personagens juntam-se como se todas se conhecessem e tivessem razões umas contra ou a favor das outras. Observando cuidadosamente os nossos sonhos conhecemos o que silenciámos aos nossos filhos ou o que nunca escreveríamos num poema nem é aludido nas nossas ladainhas aos deuses dos tempos. Como se os nossos cérebros integrassem zonas específicas de silêncio das quais irradia, como poderosas nuvens de fumo, aquilo com que entretemos as conversações. O argumento parece uma simples analogia espalhafatosa, mas apela à unidade comum do humano (o que é um bom princípio de correção política), não tanto a partilha de mitos constitutivos do pensamento (logo, constrangedores, limitativos), mas da existência de aterradoras zonas de vazio, sempre as mesmas em todos os tempos em todos os lugares e circunstâncias, sempre o mesmo calafrio perante uma imagem que imaginamos esfacelada, decomposta, esvaída, mas que nunca ninguém viu – molde de uma verdade negativa. Nem sequer se pode dizer que seja invisível e exista, apenas que nos faz sonhar os mesmos sonhos, temer os mesmos desenlaces, sobretudo, que nos faz falar de coisas que conhecemos e partilhamos como se tivéssemos tido uma infância comum, nascidos de uma mãe universal e intemporal que dá o mesmo a todos os filhos, também os mesmos terrores e o mesmo modo de pensar o que não conseguimos pensar. Por vezes aborrece-nos essa matriz em que reconhecemos em tudo o que vemos de novo e nos devia surpreender e alegrar, um ar de família como de um sonho já sonhado ou como, numa interpretação vanguardista da maternidade, encontramos ainda a Vénus de Willendorf.

no sonho a humanidade aproxima-se ou afasta-se da sua natureza?

Os animais sonham? Provavelmente. Os homens sonham do mesmo modo? Provavelmente, mas o que adiantam estas curiosidades da inconsciência? Estaremos a usar «sonho» na mesma acepção latina de «somnium» embora ignorando quais foram os primeiros homens que sonharam preocupados com a descontinuidade com a realidade acordada. Só considerando, portanto, as coisas vistas com os olhos fechados, movendo-se, e o espírito adormecido acreditando no que acontece como sendo e não sendo consigo, dizemos tratar-se de um sonho. Poderemos, assim falar dos sonhos dos dinossauros que foram animais míticos, sem racionalidade, toda a sua mente reduzida ao inconsciente e a um desejar atuante sobre a plena exuberância muscular. São assim os nossos psicopatas, com a sua inteligência facultativa disposta a tudo. Mas estes não sonham nem desenvolvem teorias do sonho. Ocupam o tempo do sonho ouvindo o próprio nome ecoar, repetido em todos os vales da montanha como uma aura de aprovação geral para o que pensem. Nós, se aparecemos num sonho, somos tímidas sombras mudas, carregadas de intenções suspeitas – mas porque teriam os sonhos de ser enigmáticos? São apenas personagens que nos usam o nome, como máscaras que não riem senão sardónicas quando desaparecem num arrepio. Ignoramos o que os animais pensam dos sonhos, que utilidade lhes dão ou como reagem quando estranhos ocupam o seu pequeno lugar num «mim» pouco individual. Mas a grande diferença é que os animais se aceitam e resignam ao que lhes acontece enquanto os humanos atiram para os sonhos a sua cobardia. Não compreendem que é animal muito do que nos sonhos surde, que é inargumentável a onirologia, que nem nos animais mais simples as manifestações sobrenaturais se objetivam. Prefere-se abusar de uma indulgente inteligência onírica e perder tempo em divinações que são profecias que se auto-confirmam em vez de ouvir a voz de Darwin discutindo com Freud as mais importantes questões da humanidade. Será realmente sustentável o seu lugar planetário? Essas questões colocam-se para cada um de nós de uma forma uniforme? Sim, todos os sonhos são transformações do mesmo sono animal. Alguns de nós complicam-nos para os decifrarem depois com grande aparato divinatório, outros, nem os recordam tal como os galos, os lobos, os ratos, os cavalos, o que lhes aparece inesperado na noite são transformações luminosas dos seus temores diurnos. Os animais não querem saber se os homens sonham. Supõem que, como eles, sonhamos e que os nossos sonhos nos devolvem o que merecemos, mas desmanchando o sobrenatural de um modo que pode ser desdenhado e esquecido, ou decomposto em tantas partes quantos os altares onde pousem (esta fragmentação do sobrenatural, tornado facultativo ou mitificado, é não ter natureza).