Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

COMO OS DETERMINANTES QUE ESBOÇAM O TEXTO NÃO O DETERMINAM

Nos hotéis, os blocos têm poucas folhas. Não esperam que iniciemos um romance de viagem nem sequer um longo poema à arbitrariedade. São folhas finas preparadas para notas irrelevantes, mas recetivas e mansas como prostitutas bem pagas. O tema da neutralidade poética é assustador, a consagração da primavera quando os pássaros vermelhos rodopiam e saltam e rodopiam em pleno salto, abraçam o ar que não existe como imensidão nem como evidência. No auge do salto tocam a nuvem amarela que também não existe nem o lilás malhado a verde do firmamento – o hotel aluga nuvens de cor rosa sem nenhum firmamento pré-definido, mas é estreito o espaço de liberdade e o raio de ação num quarto cuja arquitetura nos convida à normalização. Contudo, acontecem suicídios – a metáfora da gaiola em pássaros de altitude; e acontecem crimes passionais, talvez porque o ambiente asséptico conspurca a nobreza de alguns que não suportam as delicadas negociações amorosas. De qualquer modo, o cliente é um estereótipo de passagem, um autor de descrições cinzentas e exaustivas com detalhes insignificantes cobertos do musgo que leva para casa. Até ao dia do suicídio quando descobre que não fundamentou a noção de «autêntico» a qual só seria relevante se iniciasse um romance de viagens ou um longo poema à arbitrariedade.

SOBRE O FUNDAMENTO DA MORAL INDIVIDUAL

Por vezes a objetividade da razão obceca-nos por razões que nem sempre temos claras. No final da adolescência lemos alguns compêndios de filosofia. Não ofereceram tanto um travejamento para o pensar, mais, talvez, um inventário de estilos perante o desconhecido, também de atitudes morais a tomar, mas, sobretudo, puseram-nos a experimentar como encavalitar critérios estéticos nessas atitudes. Percebe-se em cada pessoa uma retórica pessoal para suprir a inquietação; percebemos existir um repertório estreito dessas figuras mentais e que a sua retórica não funciona. Esta educação enquista-nos numa atenção muito sensível à insustentabilidade do pensamento e desprezamos as pessoas que recusam aceitar a própria irrazoabilidade. As que praticam no que dizem descarados contrabandos entre os domínios dos conceitos. Depois, umas tentam seduzir-nos com trejeitos e piscar de olhos para que não as denunciemos, outras refugiam-se na subjetividade: dizem «Sinto que ...» ou «Tenho a intuição de que ...» requerendo para as suas produções mentais um estatuto de maior fiabilidade e maior universalidade do que reconhecem no pensamento dos interlocutores. Muitas destas pessoas têm a mente tão propositadamente acelerada que quando sentem alguma coisa desarticular-se já estão na ideia seguinte; esperam que as sigamos e achemos graça à vertigem. «Sendo assim, qual é o sentido?». Destas que põe assim o problema, muitas não encontram uma resposta satisfatória e acabam por se matar sem perceberem que, mais uma vez, a própria pergunta não se resolveria sem uma adequada definição de «sentido». Não compete à mente defini-lo: numa certa acepção, está fora do seu alcance: ela dedica-se ao que existe. Só invocando uma fluida noção de harmonia se acentua um sentimento de falta ou de incompletude que se objetiva na expressão «infelicidade» que é explicada, justamente, pela falta de sentido. Percebe-se que é muito mais fácil ter fome: a própria fome organiza um comportamento que a soluciona, no limite roubar qualquer coisa no mercado ou na horta do vizinho que é o que uma raposa ou uma águia também fariam nessa circunstância. Por alguma razão desconhecida são as pessoas que não têm fome quem mais frequentemente põem a questão do sentido. Passeiam contemplativamente nos jardins e veem-nos alindarem-se ciclicamente sem outro propósito que cumprir um programa interior a cada ser que integra o jardim; cada roseira, cada cipreste, cada buxo leva essa determinação a um ponto que parece relacionar-se com a nossa ideia de jardim e de beleza e se descobrimos umas ervas daninhas dizemos «Falta de atenção do jardineiro», se são as rosas que secaram, dizemos «Falta de água», se a alameda de ciprestes cresceu assimétrica, dizemos «Falta de previsão do arquiteto que não considerou a incidência solar». Sempre uma bem fundamentada falta organizada no que decorre de uma beleza que está nos olhos humanos, de uma noção de jardim que volta a ser um espaço domesticado pelos humanos com vista a uma felicidade que nem os humanos compreendem bem, mas cuja falta faz alguns sofrerem e suicidarem-se.

sobre a infância e o desespero

Charlot e Picasso mal reagiram quando Sylvia Plath lhes morreu nos braços. Parecia representar. Nos poemas, o destino inscreve-se inconscientemente, pensaram. As impossibilidades da mulher-total: desvelado o mito da felicidade, ainda assim, levar a denúncia a uma apocalíptica poesia. Como uma tela sublime mantida na escuridão, julgou Picasso, como o guião nos incendeia e nos perdemos do que acreditamos, murmurou Charlot. Odiaram-lhe o marido: todos os poetas implacáveis do próprio narcisismo deveriam morrer por exaustão recebendo uma ovação que não acabasse, que não os deixasse dormir, nem comer nem escrever. A ela a pergunta que lhe fizeram foi onde ancorar a poesia? À época, grandes navios vindos da Europa levavam para os novos continentes os cidadãos escorraçados. São sempre grandes filhos-da-puta quem define os desalbergados do destino. Sempre se deportaram populações inconvenientes, agora era os que escaparam do extermínio. Tentava-se um equilíbrio nos ventos do destino (quase toda a França colaborara, mas vinha com os vencedores; era o pós-guerra). A ocasião desfez-se num sismo de células sangrantes. Frias. Endinheiradas ou comunistas, onde cabem as múltiplas significações do horrendo senão num grande intervalo entre as nuvens? Estas são as condições à nascença, inegociáveis, claro, por isso, podemos nunca desculpar quem nos fez existir em má ocasião. O real é um bem social, um laboratório espontâneo onde a televisão processa conveniências. Os pais não podem ignorar as circunstâncias. Uma poetisa é um caso especial do existir: ela é a catálise do real. Charlot e Picasso comentavam-lhe os poemas. Charlot tentava devolvê-los à mudez, recuperar com o burlesco uma noção de esperança a qualquer preço, mas não existia esperança na poesia dela. Era preciso uma pirueta e um inimigo reconhecível, não o marido nem o fantasma do pai, uma generalização já incompatível com a linguagem. Picasso estava na fase das tauromaquias; conhecia os riscos no trilho do suicídio. As suas pinturas corriam riscos poéticos. Todas as mulheres eram Sylvia e o poeta laureado, o touro brutal, o raptor tresloucado dentro de si, imperialmente, o seu cinismo refinado. Quando ela apareceu, tinha tomado uma sobredose de barbitúricos e cheirava a whisky, uma excessiva autenticidade, pensaram, mesmo para uma poetisa. Compreendera os mecanismos do mito: deixar-se dominar e sucumbir no extremo do desespero era o seu tributo ao amor, um limite da fecundação.

sobre a infância e o desespero

Charlot e Picasso, contudo, mal reagiram quando Sylvia Plath lhes morreu nos braços. Parecia representar. Nos poemas, o destino inscreve-se inconscientemente, pensaram. As impossibilidades da mulher-total: desvelados os mitos da fecundação, ainda assim, levar a denúncia a uma apocalíptica poesia. Como uma tela sublime mantida na escuridão, julgou Picasso, como o guião nos incendeia e nos perdemos do que acreditamos, murmurou Charlot. Odiaram-lhe o marido: todos os poetas implacáveis do próprio narcisismo deveriam morrer por exaustão recebendo uma ovação que não acabasse, que não os deixasse dormir, nem comer nem escrever. A ela a pergunta que lhe fizeram foi onde ancorar a poesia? À época, grandes navios vindos da Europa levavam para os novos continentes os cidadãos escorraçados. São sempre grandes filhos-da-puta quem define os desalbergados do destino. Sempre se deportaram populações inconvenientes, agora era os que escaparam do extermínio. Tentava-se um equilíbrio nos ventos do destino (quase toda a França colaborara, mas vinha com os vencedores; era o pós-guerra). A ocasião desfez-se num sismo de células sangrantes. Frias. Endinheiradas ou comunistas, onde cabem as múltiplas significações do horrendo senão num grande intervalo entre as nuvens? Estas são as condições à nascença, inegociáveis, claro, por isso, podemos nunca desculpar quem nos fez existir em má ocasião. O real é um bem social, um laboratório espontâneo onde a televisão processa conveniências. Os pais não podem ignorar as circunstâncias. Uma poetisa é um caso especial do existir: ela é a catálise do real. Charlot e Picasso comentavam-lhe os poemas. Charlot tentava devolvê-los à mudez, recuperar com o burlesco uma noção de esperança a qualquer preço, mas não existia esperança na poesia dela. Era preciso uma pirueta e um inimigo reconhecível, não o marido nem o fantasma do pai, uma generalização já incompatível com a linguagem. Picasso estava na fase das tauromaquias; conhecia os riscos no trilho do suicídio. As suas pinturas corriam riscos poéticos. Todas as mulheres eram Sylvia e o poeta laureado, o touro brutal, o raptor tresloucado dentro de si, imperialmente, o seu cinismo refinado. Quando ela apareceu, tinha tomado uma sobredose de barbitúricos e cheirava a whisky, uma excessiva autenticidade, pensaram, mesmo para uma poetisa. Compreendera os mecanismos do mito: deixar-se dominar e sucumbir no extremo do desespero era o seu tributo ao amor, um limite da fecundação.

a perda, a honra, a desistência - reflexão em japonês

«Porque o fizeste?» Todos os suicidários nos deixam perplexos e um pouco assustados. Partiram de uma condição que partilhamos, a existência, e resolveram contra ela. Podemos dizer que a existência é uma temática em que todas as razões concordam com todos os instintos, portanto, quando deparamos com o cadáver maltratado pela própria vontade, procuramos indícios que, se não respondem à razão do suicídio, nos elucidem sobre as suas circunstâncias. Trata-se de uma forma desesperada de simpatia; desesperada não só porque derradeira, mas porque opaca: tem que se alimentar de um desejo de proximidade que já não é correspondido. Aparece, então, o «Como o fez?» sucedâneo: esperamos ler nos detalhes instrumentais do ato algo sobre uma vontade que se extremou contra a vida: 1) tentamos analisar as suas razões, compreender a continuidade da vida com a decisão; no fundo, estamos, não tanto a julgá-lo, como a tentar manter a compreensão da pessoa o que é ainda uma expressão de estima; 2) ou tentamos, pelo contrário, demonstrar-nos como as nossas circunstâncias diferem das do suicida; assim damos créditos às nossas razões para apreciarmos a vida e não lhe seguirmos o exemplo; 3) ou tentamos moralizar e apontar à pessoa do suicida vícios de formação ou de desenvolvimento que teriam cavado inexoravelmente o seu destino; 4) ou tentamos reforçar as nossas convicções e atribuir-lhes uma potência protetora contra o aniquilamento; 5) ou tentamos apresentar as nossas presentes responsabilidades como cruciais para com várias pessoas estimadas de modo que o nosso suicídio arrastaria uma cadeia de desgraças; 6) ou tentamos conceber a vida como uma autoconstrução norteada pela vontade e concedemos o direito individual a avaliar o seu merecimento, portanto, caso seja negativa essa avaliação, reconhecemos o direito individual a demolir-se um edifício que se afigura obsoleto; 7) e tentamos conceber o gesto suicida alimentado pela coragem de uma decisão consciente e não pela raiva contra a vida, a fúria contra o eu. Em geral, não carecemos do resultado da autópsia para tirar conclusões, só em circunstâncias excecionais temos de descartar a hipótese de uma assassinato. Na maioria dos casos, ou uma carta de despedida ou as próprias circunstâncias (uma disputa entre amantes, a falência do negócio, um abandono, a culpa por qualquer delito de consciência) esclarecem este «como?», mas há sempre alguém mais próximo que conviveu com o cadáver e dá conta do mecanismo da passagem. Só desejamos que tenha sido rápida e suave, por isso o enforcamento ou as armas de fogo, apesar de populares, são tão desagradáveis. No ocidente, nem «harakiri» nem «seppuku» são compreensíveis fora de uma noção de honra levada a um ponto irreversível e, no entanto, «cortar ventre» ou «ventre cortar» parecem-nos designar o mesmo honorável gesto de se apunhalar no baixo-ventre não ostentando a pureza das próprias vísceras. Neste caso, em que as razões são explícitas, não percebemos porque é que a inversão dos pictogramas chineses transforma a sonoridade da palavra (que designa a mesma forma de suicídio) gerando «seppuku» em vez de «kirihara», mas os assuntos do suicídio têm os seus paradoxos.

de como poderá ser fatal um problema mal colocado

Quando alguém nos diz: «Vou-me matar» atravessa-nos uma empatia fruste. Tentamos compreender onde falha o raciocínio e só depois examinamos a autenticidade do que nos declara. Recorremos a uma lógica de perdas irreparáveis para tentar chegar à sua não-solução – ao que seria para nós uma não-situação, isto é, uma situação onde o ar faltasse, a polícia nos perseguisse, já não conseguíssemos defender a família, nem a pátria, nem pudéssemos mais contar com qualquer caridade. Tudo se esgotou, o que sobeja é uma vida da qual então dizemos «não ter sentido». Erro semântico: «não ter sentido» é uma lógica estética sem relação com as perdas, parecida com a que nos faz detestar um maestro que produz desarmonias embirrentas numa sinfonia de que gostamos. A harmonia é um conceito fluido, mas deixa espaço para sorrir a alguém ou a uma criança, recitar-lhe um poema ou explicar-lhe, no princípio de Arquimedes, de como os volumes se interpenetram. O corpo que se quis matar não contou com a escassa profundidade do lago onde nem os cisnes mergulham, nem os peixes vermelhos escapam dos gatos; a borboleta pousa nos nenúfares e é tudo nesse instante. O «vou-me matar» ecoa em nós como um espelho nos reflete. No nosso esgar há uma intenção, uma atitude, ao menos. O corpo não é um volume de acontecimentos passados, a nossa consciência não é um xadrez de hipóteses, o nosso eu não é um frio decisor encarregue de otimizar oportunidades futuras. Esbracejemos; lutemos contra as vagas sem necessariamente as contrariar, mas resistindo a Arquimedes que toma o nosso corpo como um volume morto. No corpo compreendemos a hidrodinâmica da vida, os seus movimentos ascensionais e os abismos onde a vontade redemoinha, mas quando alguém nos diz: «vou-me matar» um impercetível terror percorre-nos. Continua: «Não é desespero, é uma vontade de acabar». Pouco poderemos fazer. Quer retirar-se e ficar só. Pensamos o que diríamos no elogio fúnebre, se encontraríamos algo de particular a elogiar ou se mais vale ficar pelas vulgaridades habituais sobre a morte que é o que todos esperam ouvir. Apenas nos perguntamos se alguém se sente culpado.

resolução da fenomenologia existencial

RESOLUÇÃO DA FENOMENOLOGIA EXISTENCIAL   Hoje, já não faz sentido perguntar pelo sentido da vida. O sentido veio com a vida e nós ou o sentimos de imediato, como, ao ver o sol, temos a luz e o calor, ou, se não o sentimos, ninguém nos pode explicar como o encontrar (é como não ver o sol, não ter luz nem calor). Em qualquer caso a vida continua e as coisas têm de ser feitas. Este é o sentido para muita gente: os filhos que vieram e têm de ser criados, as contas do que se gastou sem pensar, as férias em que se obrigam a viajar para algum lugar exótico, cuidar da própria saúde como um escultor esculpe um torso o mais realista que consiga. Muita gente só em férias sente necessidade de pensar no sentido e encontram-no e quando as férias acabam continuam satisfeitas porque embora regressem ao frio e à monotonia, confirmaram estar no caminho certo. A questão do caminho certo não se correlaciona com o sentimento de absurdo: a maior parte dos cidadãos são democratas bem comportados, nunca saíram do bom caminho e, contudo, é desta população que saem os suicidários mais radicais. Sentem o fundo faltar-lhes como se a vida derrocasse e suicidam-se mansamente com pastilhas como quem recusa dar uma esmola e volta a cara para o lado, mas não protestam nem se revoltam com violência. Pelo contrário, são as pessoas que acreditam profundamente no sentido da vida que ao serem defraudados das suas pretensões (em geral, exageradas) tomam veneno para ratos, enforcam-se ou agarram numa arma e disparam sem hesitar. Provavelmente não encontramos em nenhum lugar do cérebro, vestígios do sentido – o cérebro pensa sem sentido, emociona-se em qualquer sentido, age em sentido oposto ao que deveria tal como as pessoas rezam sem nenhum microaltar cerebral a garantir a existência da divindade. Também da pátria, nem vestígio, nem da coragem que ela nos requer, nem da poesia e o empenho suado em cada palavra. Nenhum destes conceitos tão enraizados na língua enraíza no cérebro, ainda que a linguagem enraíze no cérebro. É com ela que afastamos Deus e a pátria com uma coragem que não vem do cérebro nem da língua, mas que a língua mistifica. Portanto, mais vale continuarmos a falar do sentido e a atribuir-lhe importância porque é ainda mais difícil fundamentar as outras questões importantes. Porque não nos matamos uns aos outros como antropófagos divertidos? Porquê respeitar os fracos e os velhos que já não têm préstimo social?, o que nos impede de os roubar, de os explorar, de os extinguir? Porquê a generosidade, a misericórdia, o altruísmo? Porque é que a beleza é melhor que a repulsa? Porquê a democracia, o futebol e a pílula anticoncecional? Respondemos porque sim, porque aderir é acreditar, o que já é sentir o sentido. Apenas sei que como porque tenho fome, amo se me atrai, canto se estou alegre, se triste choro e que o sentido não está no animal automático do corpo, mas no papagaio da alma que faz perguntas tontas apenas porque a linguagem lhe permite. Hoje, tudo o que é humano tem sentido para os humanos.