Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o que acontece não se destina a nada

Tudo o que acontece nos entra pela casa e fixa-nos o olhar na pantalha do suceder. Há acontecimentos muito inesperados, outros muito espetaculares, outros terríveis, mas distantes, outros menos terríveis, mas que a proximidade torna ameaçadores. A maior parte do que se projeta na pantalha é histeria futebolística ou acontecimentos equivalentes que gostamos que aconteçam porque, acontecendo, asseguram-nos da possibilidade de uma normalidade. Qualquer normalidade nos serve a maior parte do tempo. A morte não é uma saída da normalidade, não é, sequer, uma verdadeira conclusão, nem confere sentido a nada, nem interroga ninguém. Muito do que acontece pode ser referido ao espaço do amor ou ao espaço religioso e, em ambos, todas as confusões semânticas encontram eco. Nem tudo o que acontece enraíza nesta forma de acreditar que aproxima o amor e a religião a qual, quando nos apanha, torna-se um vício que mobiliza tudo dentro do que somos. É a expressão do inexorável total, da desverdade que é a forma da verdade distorcida quando o amor é tóxico, do enclausuramento da liberdade numa diminuta gaiola se saciedades. Dá-se, então, o paradoxo de o que passa na pantalha se tornar indiferente como se tivéssemos visto todos os desenlaces possíveis da humanidade. Tudo o que nos entra pela casa e nos fixa o olhar na pantalha do suceder nos tornou alheios ao que efetivamente acontece. Não chegamos a dizer que a normalidade seja um colete-de-forças, apenas que as casualidades procedem de insondáveis mecanismos dos quais nos encontramos dissociados.