Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

O ANO NOVO, PROVAVELMENTE  

O último dia do ano só seria relevante se fosse o último dia de todos os dias para sempre, se o sol não nascesse amanhã alimentando o néscio otimismo permitido até aos mais desesperados. Seria, então, relevante se todos soubessem que seria o último dia para todo o planeta – caso contrário, seria o dia trivial em que as pessoas encerram um ciclo e iniciam outro sendo arbitrária a data em que o fazem (noutros lugares fazem-nos noutros dias). Como escolheriam passar o último dia do último ano da sua vida se acreditassem que tal aconteceria? 1) Algumas pessoas acreditariam até ao último minuto na improbabilidade do apocalipse e continuariam o seu programa de festejos do fim do ano, embora com um indisfarçável desconforto; nos derradeiros minutos do dia, perceberiam ter errado. 2) Haveria os que escolheriam passar as derradeiras horas a fazer amor, 3) os que se juntavam aos familiares ou aos seus semelhantes do clube ou aos companheiros de trabalho ou aos correligionários, 4) os que desinibiriam uma impulsividade mortífera, agora que não teriam que temer nenhuma punição, desatariam a matar como bombistas-suicidas, 5) os que rezariam, a sua fé reforçada pelo medo, 6) os que meditariam, resignados, 7) os que apelariam a um generalizado arrependimento inventando culpas sorumbáticas, 8) os que não aguentariam a espera pela meia noite de 31 de dezembro e se suicidariam antes, 9) ou suicidar-se-iam por uma vontade de controlo, 10) ou por, racionalmente, acharem injustificado esse resto de horas. 11) Muitos procurariam uma explicação que aliviasse o absurdo do apocalipse (sem lhe chamar apocalipse pois não o enquadrariam na profecia de João de Patmos, mas num mero fenómeno astronómico). Assim, amanhã será, com toda a probabilidade, o novo ano.

MADAME CURIE  

«Hoje é domingo» assinala a banalidade que é o suceder no tempo – ao domingo, apenas jogos de futebol. Também, restos de acontecimentos que não foram conversas conclusivas nos dias passados. Quanto ao mais são os acontecimentos habituais das democracias parlamentares e as fachadas dos grandes bancos milionários como toupeiras esburacando o sistema. Corrompendo e asfixiando. Vendendo armamento. Antes havia Deus. Em particular ao domingo, havia Deus. Deus era mais ativo ao domingo ou aproveitava a nossa inação e a nossa bonomia para nos fazer pensar na melhor forma de organizar a semana seguinte. «Prever para prover»; ao domingo reparamos como pouco conseguimos prever, como as leis positivas que usamos na nossa meteorologia privada falham e quando nos desculpamos «É complexo» já estamos a reconhecer o rotundo falhanço do nosso pensamento, estamos a abrir caminho para regressar a uma forma mágica de olhar a nossa vida numa perspetiva demasiado ampla como se ela coroasse a evolução da subjetividade e desta dependesse o aparecimento de novas espécies e de novos reatores nucleares. No íntimo temos alguma lucidez sobre a nossa insignificância e quando perguntamos à natureza «Donde vimos?, o que somos?, para onde iremos?» só podemos obter respostas falaciosas ou apodíticas, baseadas nas nossas próprias convicções. Fica, assim, difícil sair disto sem passarmos por uma razão metafísica que nos permita pensar as coisas, não como poetas líricos eivados de dúvidas sobre o espiralar dos aspetos como se nada os relacionasse, mas, aproveitando o ócio dominical, deveríamos examinar o que existe de nebuloso na nossa mente e, simetricamente, o que existe de mental numa nuvem, também pensar em como as nuvens aparecem e desaparecem do firmamento – como a humanidade na terra, e no entanto podem provocar grandes enxurradas, ou chegar a causar, com um dilúvio, o desaparecimento de dois terços das espécies. Hoje, domingo, a humanidade parece-me relativamente tranquila, talvez apenas porque os jornalistas estão de fim-de-semana, mas amanhã não me posso dar ao luxo deste pensamento translato onde as coisas interagem até com o nosso olhar e, ao tocá-las, ignoramo-las. Amanhã, nem Deus nem física quântica, as coisas têm que estar limpas, o ser-em-si separado de outras essências irrelevantes ou prejudiciais à sua pureza conceptual. Esta noção de contaminação vem dos primórdios da modernidade e marca a longevidade humana, mesmo se a radioatividade que cura também nos mata tal como as nossas dúvidas teológicas, ou filosóficas, ou meramente linguísticas, que sabemos hoje onde nos levaram.

O CARVALHO  

Se o movimento afunila a consciência e obriga à centração dos sentidos na marcha e no que se avizinha, então à imobilidade convém a maior abertura, uma representação do mundo sem filtros, sem preconceitos, sem hierarquias em que o detalhe da vida de um fotão com as suas coloridas narrativas tem importância igual à da nuvem carregada com a chuva torrencial de um dilúvio com as respetivas enxurradas pelas encostas e acidentes mortais ou à de qualquer acontecimento em qualquer escala como a passagem através de um buraco negro. Para um ente imóvel a consciência é uma fotografia cada momento mais ampliada onde, como num pântano, o eu submerge. Um carvalho muito antigo perdeu a noção de existir; os ciclos aplanaram-se, o rio encontra uma cova, detém-se: lago, mar morto. Floresta de carvalhos, a oscilação das forças mansas em contraciclo com a timidez nuclear da vontade. Tudo o que chega é, sem mais evidência: cria o lugar que ocupa, assim se torna necessário como um deus. Contudo, podemos passar ao lado, tranquilos, sem olhar. Se o vento arranca as folhas, o carvalho não quebra. Arrastadas, elas pertencem ao vento, já não à enorme instabilidade vegetal do que é inseparável. Um ciclone arranca o carvalho; ele não consegue pôr todas as hipóteses como um humano, nem pode pensar-se humano como um homem se pode pensar um carvalho. A sua consciência não foca o pesadelo nem o medo pois nunca sonha nem foge; nunca sai da sua verdade nem ambiciona nem imagina. Assim nasce da imaginação a consciência do que não se poderá ser, também daquilo a que não se torna, do que não se converte, do que não se deturpa nem cede, do que deixa de ser e de pertencer apenas se arrancado à terra. A consciência é a necessidade de superar o vento, a esfinge corrompida pela vontade.

COMO ABORDAR OS CONCEITOS INDEFINÍVEIS

Porque não é infinita a luz, pensamos numa palavra, «proa» ou «pera», e esperamos que se alumie. Compomo-la de improvisos, sombras de músicas perfurantes e perguntamos de quantas essências é o mundo feito, se a imanência do ser se aplica ao perfume ou a alguém. À consciência? O efeito do amor sobre a pele, a fluorescência que vibra em cada segundo dos poros, é a lâmpada de Deus e o que a funde – a eternidade possível. Pois o amor é a direção da proa; o sabor da pera, uma necessidade de algo que nos difunda na impregnação anterior da alma. Chamamos a isso «tempo» ou o tempo é a consciência dos estados à beira do precipício, os equilíbrios necessários ao aprender a manobrar os espelhos, colocá-los em paralelo até ao fim do «tempo», situação por definir onde já ninguém estará e eu saí muito antes.

cronistas discretos e exuberantes

Dizer que o cronista é um especialista em tempo afim de um meteorologista ou de um relojoeiro é confiar demasiado nas palavras e nos seus étimos. Com o tempo alargou-se o significado de tempo independentemente do tempo que faça ou do tempo que consideremos, dos instrumentos de medida que utilizemos, da duração da própria medição do tempo, ou se o tempo passou, se há de vir ou se é o atual. Esta última distinção talvez seja a relevante: não concebemos um cronista que se foque no dia-a-dia medieval ou que nos venha falar do dia 24 de dezembro do ano 5017 – não são estes os seus tempos. O «chronos» do cronista separou-se, também, de um tempo misterioso e sincrónico que encontramos ainda na poesia e quando observamos uma estrela sem refletimos nas condições de verdade e dizemos: «É uma estrela». Na verdade, o que observamos é a sua luz, a estrela poderá ter-se extinto entretanto; nesse caso, a expressão correta seria: «Foi uma estrela» ou melhor: «Poderá ser uma estrela», mas um cronista não se obriga a uma precisão científica, antes a um estilo de pensamento baseado em indícios selecionados de um menu político em grande medida submerso. Tenta persuadir-nos com esse chronos pseudo-objetivo; sugere conhecer o inconsciente do tempo, isto é, das personagens que marcam o seu tempo; os seus prognósticos avisam, as suas versões insultam e acusam os ineptos que desperdiçam as oportunidades deste tempo (no sentido de «época»). Ele conhece o tempo de uma obra no sentido da intimidade da sua realização e é esse o seu domínio: para ele, errar é confundir o alegro majestoso com um lentíssimo funerário no suceder dos eventos entre os atores que considera ou desconsiderar atores que se revelam importantes quando o critério de importância são as inflexões no tempo. Um cronista não é sensível ao compasso de um quotidiano linear. O que nele nos interessa são as suas descrições da atualidade e a forma como as distorce enviesado por uma clivagem direita/esquerda (ou por outra qualquer: cristão/muçulmano, hindu/muçulmano, etc.) com que simpatizamos, embora, hoje que a esquerda perdeu muito do vigor progressista da revolução francesa, pode ser confuso perceber o que o cronista pensa, o que defende e, até, o que é a verdade.

pensar sem pensar o tempo

Quando tentamos chegar a uma conclusão pensando corretamente um assunto deparamos com dificuldades na forma como usamos o pensamento. Nunca antes pensáramos como o pensamento pensa, apenas como erra, como se deixa enganar, quais os melhores truques para conseguir enganá-lo, mas, hoje, fazemos confusões frequentes pensando o pensar e, se o cão saliva quando ouve a campainha, pode estar a associar coisas que nenhuma relação têm entre si. O facto de o pensamento do cão pensar com indícios e com correlações, no caso humano corresponde a uma variedade de superstições que não é tão aceitável hoje como era no tempo de Pavlov. Ele fundou uma ciência da aprendizagem e da mente como se as casualidades que o cérebro deteta causassem os acontecimentos e fosse isso pensar. Percebe-se que uma noção rigorosa de «causa» só é utilizável num laboratório de física. Ao tentarmos explicar um tornado, ou as migrações das andorinhas, ou a esquizofrenia, lidamos com efeitos indistintos das causas se desconsiderarmos o tempo. O tempo é a nossa narrativa das causas. As migrações das andorinhas são causadas por abril todos os anos, uma esquizofrenia é efeito de um nada intracerebral fantasmático e um ciclone é uma devastação por uma concertação de acidentes que se soltaram da tranquilidade dos céus e colapsaram. O tempo e a devastação são tão desproporcionados num ciclone ou na esquizofrenia que mais vale pensarmos sem o tempo; pensar como o cão as fortuitas associações que o cérebro deteta tentando, apenas, ser um pouco mais prudentes com a epistemologia.

de quantas dimensões precisamos para descrever o que se passa?

Penso que é importante quando falamos do que acontece, falarmos do tempo. É um conceito fugidio e podemos ser tentados a prescindir dele. Em muitos poemas, tal como na escrita aforística ou lapidar, o dito sustém-se sem especificarmos quando foi escrito. Supomos que certas proposições têm uma consistência de mármore e, como estátuas (ou como fotografias), a sua leitura passa-se como um gargalhada, ou como um deslumbramento, ou como uma vulgar evidência – instantânea e fixa. O que acontece difere do que é e do que está – que ainda não é completamente e o que venha a ser poderá ser diverso do que agora pensamos que será, e são estas tergiversações do ser que dizemos acontecer no fio do tempo. O que é ou está define-se num referencial tridimensional local – tudo estático, até nós que, como qualquer poeta não lírico, não subjetivamos o que dizemos. Gostaríamos de o dizer num único derramamento de palavras, todos os instrumentos de uma orquestra sinfónica tocando o mesmo trecho num curto instante. Antes e depois, silêncio. Esse silêncio anterior e posterior aos acordes é o tempo; um intervalo a ser preenchido pelo que acontece, mas todos os acordes num mesmo tempo não fazem a sinfonia que estamos habituados a ouvir embora sejam a sinfonia.

meditação sobre um corpo que se desfaz na própria volúpia

Ao pensar passamos por inúmeros lugares comuns que um dia abandonaremos – talvez quando tivermos um lato recuo e desvalorizarmos o tempo como agente de transformação. Não nos oferece uma direção, uma causa, um propósito e, contudo, só a partir do tempo conseguimos considerar a vida, os acrescentos, as mudanças de penteado, de opções em culinária e, também, considerar as perdas: a calvície, o desemprego, a fé e todas as mudanças no sentido das palavras. Agora que cessou o papel dominante no jogo do amor sobrevém a pesada evidência da imobilidade. O prazer transmudou-se num lago profundo, as mãos abertas, com bandos de pássaros muito distantes, deixam as memórias partir, a cabeleira prepara-se para uma eternidade sem glória nem pente. A coloração é a das copas num bosque de cedros ao lusco-fusco. Sobrevém, então, não tanto a volúpia e a sua mortífera entropia, mas o lugar do humor na compreensão, a afinidade entre a luz e a necessidade de nos iludirmos, como o sal e a pimenta, um paradoxo que só não nos angustia porque o retomamos com algum cinismo. Portanto, não argumentamos o tempo.