Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A FALTA DE RAZÃO PARA TRABALHAR  

Quando temos um grande trabalho pela frente, é preciso engonhar. «Engonhar» é uma palavra quase onomatopeica pois contém a sonoridade de uma lassidão centrada em si – engalfinhada entre um fazer que não se decide e um ócio inquieto e rebarbativo. O ócio também aqui é essencial, um ócio que nos bloqueia, que convoca demasiadas hipóteses como se acreditássemos num futuro construído e feliz. Engonhar pressupõe uma confiança cega na bioquímica das decisões universais. Sentimo-nos escorregar nitidamente para fora de controlo, e, já em desequilíbrio, ainda esperamos que a gravidade se altere a nosso favor e permaneçamos em pé (ou, se cairmos, que seja nos braços de alguém que nos estime e proteja). Um grande trabalho é quase sempre uma prova de esforço inútil: poucas teses de doutoramento são lidas, poucos relatórios sobre política são lidos, sejam genéricos sobre o futuro da nação, sejam específicos como a cadeia de acontecimentos que decorre da extinção das abelhas, poucas receitas de culinária são seguidas à risca pois as pessoas permitem-se ter ideias criativas e melhorarem os menus, apesar de alguns fracassos anteriores. Esta memória dos trabalhos em que não engonhámos condicionou-nos a engonhar: 1) porque a urgência de um trabalho é momentânea como uma dor de barriga, 2) porque um trabalho exaustivo nunca será completado pelo que mais vale engonhar, 3) porque só depois de completo, poderíamos justificar o que deixar de fora, 4) assim um trabalho não exaustivo, logo incompleto e defeituoso, logo parcelar e redutor, logo não urgente e inconclusivo, logo suscetível de ser engonhado; 5) porque a um trabalho não engonhado segue-se outro que é forçoso engonhar; sobretudo, porque, 6) um trabalho já acabado levanta a questão do sentido do que fazer a seguir, que é difícil de engonhar, e, 7) levanta a questão do sentido de toda a ação: 8) se não deveríamos virar para a autocontemplação meditabunda como forma suprema de engonhar. Portanto, a maior parte dos trabalhos conduz a um aprofundamento das razões num erudito encadeamento de comiserações que é a natureza do engonhar o qual resvala para uma subjetividade de apreciações que nos envergonha porque engonhámos, o que é ainda maior engonhanço.

o primeiro de maio

Deveríamos refletir sobre que noção de trabalho adotar quando pensamos no que é um trabalhador. «Trabalho» está contaminado por um marxismo duvidoso, quando «trabalho» é sobretudo o que resulta em movimento. Já agora restringiríamos «trabalho» ao que resulta em movimento para diante. Embora ignoremos o que está adiante, portanto, não aplicaríamos «trabalho» ao movimento que visa regredir para estados anteriores do sistema, nem tampouco ao que visa, apenas, estabilidade. Este trabalho é o repouso o qual, se for imerecido, é a preguiça (ou, em casos extremos, coma). Quando o trabalho se aplica totalmente no sentido oposto ao movimento do sistema para diante estamos perante formas epopeicas de nostalgia cuja nocividade é difícil de avaliar. Na verdade, se iniciamos essa busca da felicidade mergulhando no regresso à boa natureza-mãe, chegamos às tribos de neandertais rumando de África para o norte e, ao assomarem na Europa inquirindo-se se é mesmo onde querem instalar-se. Se o movimento para diante for incipiente, então não é preciso uma grande força para produzir mais movimento retrógrado e poderemos imaginar as tribos de neandertais regressando a África e, mais para trás ainda, subindo às árvores como os outros símios. Podemos imaginar sempre mais para trás até às formas incipientes de vida cuja misteriosa simplicidade não compreendemos. Assim, no dia do trabalhador devemos pensar que muito do trabalho produzido alimenta vícios de consumo inútil, que delapida, que aliena e que, em muitas circunstâncias, mais vale ler um livro ou escrever um poema do que trabalhar nesse sentido de transformar esforço em fancaria de supermercado. Hoje muitos trabalhadores foram substituídos por robots: a natureza do homem liberta-se de uma economia espúria de trocas indignas; finalmente a ontologia total do homem sem necessidades, o pós-despojamento, a pós-saciedade e o trabalho virtual de cada humano pensando-se na sua humanidade aberta a tudo.