Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

para uma teoria do valor do outro

Ao certo ninguém sabe o que é o amor: 1) uns colocam-no muito perto do sexo, 2) outros, a par de um reportório de manhas que usa palavras automáticas a que é difícil escapar; 3) outros ainda atiram-no para uma irmandade siamesa de interesses desemparelháveis, ou, 4) de preocupações e proteções e soluções sempre ao serviço de alguém mantido num altar de estranheza; 5) ainda, para outros, é admiração por alguém a quem se atribuiu um valor e cuja dignidade se diz respeitar, ou, 6) simplesmente, uma admiração que se fixou num gesto, num tom de voz, mais frequentemente, na graciosidade, quase táctil, do corpo ou de um detalhe do corpo, atributos que passaram a marcar uma personagem cuja presença se estima como a casa que habitamos porque é a nossa. O problema com o outro é não estabilizarmos uma destas formas de amor, assim tanto acontece desinsuflarem-se como deslocarmo-nos de um entendimento de amor para outro, surpreendendo o parceiro pois a nova situação pode ser abertamente desvantajosa para ele. Ainda sem levantar questões de poder que podem sempre ter uma leitura sexista, vamos tão só chamar a atenção para um valor instrumental atribuído ao outro por aquilo que ele proporciona e, aqui, está-se a abrir maximamente a noção de «valor» embora tentando não a moralizar (restringindo o valor à utilidade do outro): 1) o outro fonte de satisfação (um modo de nos tomar o corpo ou de o envolver no seu), 2) o outro fonte de vanglória (o outro-troféu exposto aos pares que nos admiram porque o possuímos ou, pelo menos possuímos o direito de o ostentar), 3) o outro fonte de proteção (como um chapéu-de-chuva nos abriga das intempéries ou como um chapéu-de-chuva antinuclear nos protege de males ainda maiores), 4) o outro fonte de vantagens alimentares (deixa-nos as sobras do seu pequeno-almoço, as torradas já secas, o xá preto refeito com água acrescentada), 5) o outro fonte de vantagens materiais (dádivas que nos parecem pagamentos a preço de saldo pelo que nos reservamos o direito de o roubar), 6) o outro fonte de devaneios (permanente e intocável, ele escapa-se quando o pretendemos tomar, aproxima-se quando o queremos deixar), 7) o outro, parceiro de cooperação (um altruísmo recíproco aplicado à sobrevivência). E se a noção de «valor» nos faz entrar no domínio do maior valor sobre o menor, também o «desvalor» interfere no amor. Na verdade, tudo o que tem valor se sujeita à desvalorização que tanto resulta de uma efetiva perda de valor (alguém que se demenciou ou que foi amputado ou operado à próstata) como resulta de treslermos o outro (as suas intenções, aviltantes, as suas observações, néscias ou agrestes, os seus gestos, toscos e desadequados). Portanto, quanto à estabilidade do amor, se o entendimento de «amor» é afim do valor atribuído ao outro, esse entendimento reforça o valor e este reforça o entendimento; se o valor (a beleza, por exemplo) se perde unilateralmente (consequência do próprio envelhecimento, em geral), o amor mantém-se apenas se o valor do vínculo superar o valor que cada um atribuiu ao outro.

o mentiroso e o pantomineiro

O que existe de reprovável num mentiroso compulsivo? É condenável usar a palavra para enfeitar a própria pessoa com feitos inauditos? É assim tão pior do que usar roupas e ideias extravagantes para o mesmo efeito? Poderíamos continuar estas comparações entre atitudes sociais: se mentir é pior do que roubar ou que delirar ou que silenciar – sim, o silêncio é especialmente intolerável pois é o que mais afeta a rodagem social – afasta, cada um entregue ao seu equívoco. Por outro lado, será que respeitamos mais a verdade do que um mentiroso compulsivo? Se assim fosse, não pararíamos de a proclamar aos quatro ventos, defendê-la-íamos como se dela dependesse uma melhor humanidade. Mas a verdade, frequentemente, apresenta-se tranquila e sibilina, condensada numa frase pequena e cautelosa – como se fosse uma mentira dita por alguém tímido, incapaz de a argumentar. Esperamos da verdade a redundância como de um halterofilista esperamos um corpo muscularmente obsceno. Não toleramos uma verdade precária, mal talhada e incoerente. Que não se ajuste às outras partes da realidade como num puzzle, mas não serão todas as peças do puzzle graus de verdade de um todo tosco e desengrenado, ainda assim uma totalidade? Da mesma forma, as histórias do mentiroso, têm apenas a realidade da sua imaginação, desengrenada e pré-realista. Poderemos tomá-las como peças linguísticas coerentes que o mentiroso acha que poderiam competir com a realidade? A sua mentira constrói, não corresponde, mas pode ser internamente coerente, assim constituir-se comunicacionalmente, ser acreditada, retransmitida e atuar mais eficazmente do que a realidade que pode ser trivial, aborrecida, redundante. O mentiroso oferece a sua historieta colorida e reforçada com feitos articulados noutros feitos notáveis de modo a produzir um heroísmo pacóvio. Ele não defende a verdade da sua história, deixa-a facultativa, à solta, e espera que, persuadindo ela se sustenha, que justifique a admiração que solicita, que não aborreça. O mentiroso nada mais quer em troca, nunca defenderia que «a verdade é o que é útil» como um vulgar pantomineiro; nunca defenderia que a sua história é verdadeira dentro do domínio em que é falsa desde que retiremos desse domínio as partes que a tornam falsa. O que há de condenável num mentiroso compulsivo é o apragmatismo de produzir mentiras inúteis.