Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A MENTE QUE MINTA, O CORPO QUE TREMA  

É no corpo que as intenções se perdem. Como velhos vizinhos tentam ignorar a sua proximidade com uma elegância quase violenta, o eu atende o corpo como a uma criança inepta – ou a um prisioneiro que cuidasse. Mas ambos se emprisionam. Saciado o corpo, o olhar vai onde a imaginação o deixa. Primeiro, paira numa representação do mundo sem coordenadas, onde as coisas se dispõem por afinidades que constantemente variam. Quando uma se salienta, a consciência percorre-a, habita-a, tenta extrair dela todas as consequências, mas ela pouco mais dá. Nem teria de dar pois a maior parte do tempo a consciência é inútil, existe para ser ocupada como um estômago ou um útero, mas deixa-se ocupar à toa, deixa-se convencer do que quer acreditar e usa essas crenças como bandeiras do que pensa. Pensa mal sobre o clima, pensa mal sobre a globalização, pensa mal sobre os que lhe batem à porta, trata-os como se fossem roubar, pensa mal sobre as espécies em extinção, pensa mal sobre a humanidade que não considera o conjunto de todos os humanos passados, contemporâneos e futuros, mas apenas aqueles que admira e por quem tem simpatia. Distorce, sobretudo, a imagem que tem de si, que normalmente deambula sobranceira em uniforme de gala no topo da estátua equestre, mas deixa-se, por momentos, assaltar por dúvidas: «Eu serei esse?». Refere-se ao valor que se atribui. Como vizinhos que se ignoram, o eu tentava considerar-se autor de uma vasta obra que alterou a paisagem da sua aldeia, enquanto o corpo sabia terem sido as suas mãos quem construiu, as suas pernas que caminharam em busca, o seu rosto simpático que sorriu quando era para sorrir, que vituperou e combateu quem era de afrontar. «Se a obra não tivesse sido feita, qual o mérito do eu?», pergunta esse numa aflição. O corpo reage à pergunta: um suor frio na fronte, as mãos tremelicam, as pernas fraquejam, uma náusea vinda da alma vira as vísceras do avesso, o coração explode, a pele eriça-se. A consciência do corpo assim alarmado poderia fazer repensar esta quase hostil vizinhança, mas existem pastilhas para a ansiedade: «A verdade não é o corpo que a conhece, esse dúctil animal que subserve as minhas intenções. A verdade são as minhas intenções».

para uma teoria do valor do outro

Ao certo ninguém sabe o que é o amor: 1) uns colocam-no muito perto do sexo, 2) outros, a par de um reportório de manhas que usa palavras automáticas a que é difícil escapar; 3) outros ainda atiram-no para uma irmandade siamesa de interesses desemparelháveis, ou, 4) de preocupações e proteções e soluções sempre ao serviço de alguém mantido num altar de estranheza; 5) ainda, para outros, é admiração por alguém a quem se atribuiu um valor e cuja dignidade se diz respeitar, ou, 6) simplesmente, uma admiração que se fixou num gesto, num tom de voz, mais frequentemente, na graciosidade, quase táctil, do corpo ou de um detalhe do corpo, atributos que passaram a marcar uma personagem cuja presença se estima como a casa que habitamos porque é a nossa. O problema com o outro é não estabilizarmos uma destas formas de amor, assim tanto acontece desinsuflarem-se como deslocarmo-nos de um entendimento de amor para outro, surpreendendo o parceiro pois a nova situação pode ser abertamente desvantajosa para ele. Ainda sem levantar questões de poder que podem sempre ter uma leitura sexista, vamos tão só chamar a atenção para um valor instrumental atribuído ao outro por aquilo que ele proporciona e, aqui, está-se a abrir maximamente a noção de «valor» embora tentando não a moralizar (restringindo o valor à utilidade do outro): 1) o outro fonte de satisfação (um modo de nos tomar o corpo ou de o envolver no seu), 2) o outro fonte de vanglória (o outro-troféu exposto aos pares que nos admiram porque o possuímos ou, pelo menos possuímos o direito de o ostentar), 3) o outro fonte de proteção (como um chapéu-de-chuva nos abriga das intempéries ou como um chapéu-de-chuva antinuclear nos protege de males ainda maiores), 4) o outro fonte de vantagens alimentares (deixa-nos as sobras do seu pequeno-almoço, as torradas já secas, o xá preto refeito com água acrescentada), 5) o outro fonte de vantagens materiais (dádivas que nos parecem pagamentos a preço de saldo pelo que nos reservamos o direito de o roubar), 6) o outro fonte de devaneios (permanente e intocável, ele escapa-se quando o pretendemos tomar, aproxima-se quando o queremos deixar), 7) o outro, parceiro de cooperação (um altruísmo recíproco aplicado à sobrevivência). E se a noção de «valor» nos faz entrar no domínio do maior valor sobre o menor, também o «desvalor» interfere no amor. Na verdade, tudo o que tem valor se sujeita à desvalorização que tanto resulta de uma efetiva perda de valor (alguém que se demenciou ou que foi amputado ou operado à próstata) como resulta de treslermos o outro (as suas intenções, aviltantes, as suas observações, néscias ou agrestes, os seus gestos, toscos e desadequados). Portanto, quanto à estabilidade do amor, se o entendimento de «amor» é afim do valor atribuído ao outro, esse entendimento reforça o valor e este reforça o entendimento; se o valor (a beleza, por exemplo) se perde unilateralmente (consequência do próprio envelhecimento, em geral), o amor mantém-se apenas se o valor do vínculo superar o valor que cada um atribuiu ao outro.