Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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O CARVALHO  

Se o movimento afunila a consciência e obriga à centração dos sentidos na marcha e no que se avizinha, então à imobilidade convém a maior abertura, uma representação do mundo sem filtros, sem preconceitos, sem hierarquias em que o detalhe da vida de um fotão com as suas coloridas narrativas tem importância igual à da nuvem carregada com a chuva torrencial de um dilúvio com as respetivas enxurradas pelas encostas e acidentes mortais ou à de qualquer acontecimento em qualquer escala como a passagem através de um buraco negro. Para um ente imóvel a consciência é uma fotografia cada momento mais ampliada onde, como num pântano, o eu submerge. Um carvalho muito antigo perdeu a noção de existir; os ciclos aplanaram-se, o rio encontra uma cova, detém-se: lago, mar morto. Floresta de carvalhos, a oscilação das forças mansas em contraciclo com a timidez nuclear da vontade. Tudo o que chega é, sem mais evidência: cria o lugar que ocupa, assim se torna necessário como um deus. Contudo, podemos passar ao lado, tranquilos, sem olhar. Se o vento arranca as folhas, o carvalho não quebra. Arrastadas, elas pertencem ao vento, já não à enorme instabilidade vegetal do que é inseparável. Um ciclone arranca o carvalho; ele não consegue pôr todas as hipóteses como um humano, nem pode pensar-se humano como um homem se pode pensar um carvalho. A sua consciência não foca o pesadelo nem o medo pois nunca sonha nem foge; nunca sai da sua verdade nem ambiciona nem imagina. Assim nasce da imaginação a consciência do que não se poderá ser, também daquilo a que não se torna, do que não se converte, do que não se deturpa nem cede, do que deixa de ser e de pertencer apenas se arrancado à terra. A consciência é a necessidade de superar o vento, a esfinge corrompida pela vontade.