Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A CIÊNCIA ACADÉMICA  

Muitos dos artigos científicos mais chatos ou dos ensaios sobre coisa nenhuma que valha a pena ser escrita começam por: 1) mergulhar no étimo de uma palavra-chave qualquer, desmembrá-la do seu uso como se houvesse algo de ilegítimo na significação corrente que se estabeleceu, algo de inautêntico que atinge o pecaminoso de ter violado uma pureza primordial e que deve ser denunciado; 2) mais ainda, acreditar que esse significado perdido encerra o entendimento do problema, uma espécie de ancestral sabedoria intuitiva   ou mágica, que, encriptada, se encerrou; 3) uma citação de Sócrates, Platão, Aristóteles ou alguém dessa linhagem e que seja difícil refutar; houve um tempo em que as citações eram religiosas e demasiado prescritivas como se usássemos um chapéu-de-chuva antinuclear para os triviais aguaceiros outonais; 4) outros iniciam-se por um episódio histórico ou uma prática de um certo período histórico como se essa facticidade evocada ancorasse o discurso na evidência quase incoercível da memória; 5) iniciar um texto por uma experiência pessoal só funciona se o leitor conceder ao texto um crédito apenas por o autor ter escrito o que escreveu e isso torná-lo emérito; 6) o autor também pode começar por pôr o problema com várias citações, mas o leitor já antecipou que ele pretende, depois, modificar os termos em que o formulou e passa à frente os capítulos iniciais. 7) Este texto começa por um meta-começo, ou seja, tendo começado ainda não começou, mas não é por isso menos aborrecido nem mais meritório (a exemplo das artes, muitas outras disciplinas mergulham – perdem-se – no seu próprio fazer-se). Como se procurasse levar o aborrecimento do leitor a um ponto que só lhe restasse o abandono, o protesto, a recusa irritada prometendo nunca mais retornar às fontes científicas originais, um caudal inabarcável, antes esperar que os assuntos reapareçam num artigo de divulgação num noticiário generalista, sonolentamente lido depois do jantar.

PROLEGÓMENOS SOBRE O BELICISMO E A GUERRA  

Em muitos casos, quando queremos falar do «humano», mencionamos Alexandre, o Grande e não o atual rei de Espanha, mais próximo de nós, ou mencionamos Sócrates e não Platão nem Aristóteles ainda que este tenha sido professor de Alexandre. Isto mostra como a simples menção contém não só o gérmen do erro, mas o aleatório da linguagem que repousa na ideia que cada falante tem da humanidade. Isto porque, como em qualquer facto histórico, a ideia de «Alexandre» é variável de pessoa para pessoa. Uns dirão o grande conquistador, construtor de cidades, outros lembrarão o homem culto que quis expandir a cultura helénica e destruiu a civilização persa ou qualquer outro detalhe biográfico de Alexandre que, sendo verdadeiro, poderá ser mais ou menos relevante. Ora o juízo de «relevante» é, também, variável. Podemos referi-lo ao que está descrito numa enciclopédia, mas o descrito numa enciclopédia difere do que está descrito noutra. Os filósofos contemporâneos, aqui, apelam, democraticamente, ao consensual confundindo o problema da verdade ontológica e o da verdade comunicacional, enquanto os outros filósofos do passado apelavam a Deus e resolviam o problema com maior força, embora, mais uma vez, o deixassem suspenso na própria contingência divina ou como se o problema não pudesse ter uma solução que permitisse aos ateus falar com os crentes, ou como se fossem modos diferentes de ser humano. E são-no superestruturalmente. Um mérito de Alexandre foi a difusão de uma cultura sofisticada nas zonas dominadas, ou seja, de um modo de pensar o humano e de viver essa humanidade, embora, como qualquer outro grande conquistador, ele possa ser visto como um vulgar ladrão numa escala tal que afeta os próprios fazedores de opiniões e de valores. Já não se trata de, meramente, vencer, saquear, escravizar, dominar, como muitos outros ladrões com os chefes de bando um pouco mais espertalhões que os outros bandidos. Quando os bandidos se dizem soldados, suspendem o respeito pela vida dos outros, metidos num grupo organizado para matar, desresponsabilizam-se dos morticínios, instalam-se num referencial de grupo que autoalimenta a sua disposição a invadir com uma violência ilimitada. Há nobreza nisto? Cito Santo Agostinho embora discorde da descontextualização etológica da agressão que, embora sendo apanágio de qualquer cultura eliminá-la, há situações em que a dissuasão pela força é o último argumento a que recorre quem julga ter razão. Criar uma solução transforma-se em aniquilar a oposição. Dizemos «É humano» ou, pelo contrário, dizemos «Trata-se de uma horrível selvajaria». É preciso retirar ao outro alguns atributos de «humano» para o atacar, é preciso retirar-lhe, pelo menos, a razão e a nobreza que são virtudes multifacetadas difíceis de argumentar. Por isso, as nossas razões são sempre mais nobres que as dos outros.

SOBRE O CORPO DO ARTISTA  

Esgotadas as reflexões sobre o instante, a marca do gesto já não radica no mínimo. Sobretudo nas artes plásticas, a fugacidade torna aceitável qualquer aspeto, ainda que inverosímil. No passado fazíamos elegantes demonstrações sobre o que permanecia. Algures, alguma coisa a que cada palavra se referisse, mas estudando melhor o cérebro, percebemos que é um órgão oportunista pouco preparado para a verdade. Nada significa dizer que todos os artistas mentem. Argumentariam que tentaram a melhor aproximação, que são as obras que mentem e tanto mais quanto mais belas nos parecem, tanto mais quanto mais estáticas e solenes nos aparecem. Estas são as que defendem ostensivamente uma verdade, o seu autor, alguém que julgou chegada a glória e haver um limite para o que lhe compete descobrir. Uma bailarina que dança quase nua, pretende aliviar-se dos ensinamentos passados para que os seus saltos sejam instantes de regeneração. Depois, estaca em pé no centro do estúdio, mãos cruzadas sobre o peito e espera que o corpo encontre, também ele, uma resposta. Mas nem por um instante o corpo lhe responde mais que um simples «Sou contigo». Ela continua imóvel até o corpo extenuado lhe sussurrar: «Faz o que queiras, não olhes os meus limites». Há instantes em que a ilusão é máxima e mudamos a inclinação da vontade. Como um livro tem de ser concluído, é preciso uma cena que moralize o que foi escrito pelo gáudio da escrita, é preciso que, no final, algo seja revelado ou que nos transporte para um estado de bem-estar heroico ou para um superior estado de clarividência. Há uma retórica de estilos para finais de obra, mas tudo pode acabar num instante inesperado que não devemos dizer «absurdo» tal como um poema retorna ao princípio e, ao quedar-se, verificamos que apenas viajou pelo que podia acontecer e o acontecer resulta de uma insondável propriedade de conjunto. O corpo liberta-se dos seus urros, a fúria amansa-se com odores de final de tempestade. A perplexidade perante si dá lugar a uma estranha certeza. É quando os grandes artistas duvidam de si. Compreenderam a armadilha e detêm-se enquanto os outros se organizam para a glória e repetem-se sem nunca mais parar. Tornaram-se inércia, lixo; contaminados pela fugacidade dos instantes quando julgavam ter-lhes escapado. Apenas a bailarina, quando dançava quase nua, descobriu o corpo falar antes da linguagem e para essa dança não haver narrativa. É o seu limite: os instantes quando desaparecem no movimento da dança, o corpo fala além do que se pode dizer.

o mentiroso e o pantomineiro

O que existe de reprovável num mentiroso compulsivo? É condenável usar a palavra para enfeitar a própria pessoa com feitos inauditos? É assim tão pior do que usar roupas e ideias extravagantes para o mesmo efeito? Poderíamos continuar estas comparações entre atitudes sociais: se mentir é pior do que roubar ou que delirar ou que silenciar – sim, o silêncio é especialmente intolerável pois é o que mais afeta a rodagem social – afasta, cada um entregue ao seu equívoco. Por outro lado, será que respeitamos mais a verdade do que um mentiroso compulsivo? Se assim fosse, não pararíamos de a proclamar aos quatro ventos, defendê-la-íamos como se dela dependesse uma melhor humanidade. Mas a verdade, frequentemente, apresenta-se tranquila e sibilina, condensada numa frase pequena e cautelosa – como se fosse uma mentira dita por alguém tímido, incapaz de a argumentar. Esperamos da verdade a redundância como de um halterofilista esperamos um corpo muscularmente obsceno. Não toleramos uma verdade precária, mal talhada e incoerente. Que não se ajuste às outras partes da realidade como num puzzle, mas não serão todas as peças do puzzle graus de verdade de um todo tosco e desengrenado, ainda assim uma totalidade? Da mesma forma, as histórias do mentiroso, têm apenas a realidade da sua imaginação, desengrenada e pré-realista. Poderemos tomá-las como peças linguísticas coerentes que o mentiroso acha que poderiam competir com a realidade? A sua mentira constrói, não corresponde, mas pode ser internamente coerente, assim constituir-se comunicacionalmente, ser acreditada, retransmitida e atuar mais eficazmente do que a realidade que pode ser trivial, aborrecida, redundante. O mentiroso oferece a sua historieta colorida e reforçada com feitos articulados noutros feitos notáveis de modo a produzir um heroísmo pacóvio. Ele não defende a verdade da sua história, deixa-a facultativa, à solta, e espera que, persuadindo ela se sustenha, que justifique a admiração que solicita, que não aborreça. O mentiroso nada mais quer em troca, nunca defenderia que «a verdade é o que é útil» como um vulgar pantomineiro; nunca defenderia que a sua história é verdadeira dentro do domínio em que é falsa desde que retiremos desse domínio as partes que a tornam falsa. O que há de condenável num mentiroso compulsivo é o apragmatismo de produzir mentiras inúteis.

 

cronistas discretos e exuberantes

Dizer que o cronista é um especialista em tempo afim de um meteorologista ou de um relojoeiro é confiar demasiado nas palavras e nos seus étimos. Com o tempo alargou-se o significado de tempo independentemente do tempo que faça ou do tempo que consideremos, dos instrumentos de medida que utilizemos, da duração da própria medição do tempo, ou se o tempo passou, se há de vir ou se é o atual. Esta última distinção talvez seja a relevante: não concebemos um cronista que se foque no dia-a-dia medieval ou que nos venha falar do dia 24 de dezembro do ano 5017 – não são estes os seus tempos. O «chronos» do cronista separou-se, também, de um tempo misterioso e sincrónico que encontramos ainda na poesia e quando observamos uma estrela sem refletimos nas condições de verdade e dizemos: «É uma estrela». Na verdade, o que observamos é a sua luz, a estrela poderá ter-se extinto entretanto; nesse caso, a expressão correta seria: «Foi uma estrela» ou melhor: «Poderá ser uma estrela», mas um cronista não se obriga a uma precisão científica, antes a um estilo de pensamento baseado em indícios selecionados de um menu político em grande medida submerso. Tenta persuadir-nos com esse chronos pseudo-objetivo; sugere conhecer o inconsciente do tempo, isto é, das personagens que marcam o seu tempo; os seus prognósticos avisam, as suas versões insultam e acusam os ineptos que desperdiçam as oportunidades deste tempo (no sentido de «época»). Ele conhece o tempo de uma obra no sentido da intimidade da sua realização e é esse o seu domínio: para ele, errar é confundir o alegro majestoso com um lentíssimo funerário no suceder dos eventos entre os atores que considera ou desconsiderar atores que se revelam importantes quando o critério de importância são as inflexões no tempo. Um cronista não é sensível ao compasso de um quotidiano linear. O que nele nos interessa são as suas descrições da atualidade e a forma como as distorce enviesado por uma clivagem direita/esquerda (ou por outra qualquer: cristão/muçulmano, hindu/muçulmano, etc.) com que simpatizamos, embora, hoje que a esquerda perdeu muito do vigor progressista da revolução francesa, pode ser confuso perceber o que o cronista pensa, o que defende e, até, o que é a verdade.

a verdade como procedimento narrativo

Uma avalanche por uma ribanceira íngreme destruiu o bairro. Depois, vieram as palavras reguladoras com os seus tratores, os guindastes, os operários com novos artefactos arquitectónicos, de certa forma, «sociais». Todos pretendem vencer a mesma ordem inoculada na vida que se ofereceu, surda e passiva, à destruição. O galope fluente dos nomes tanto se aplica a essa totalidade narrativa que assalta a cidade como à própria destruição da cidade e de tudo o que é tangencialmente inacessível. Perante uma opulência social que falha, o excesso de vida confunde-se na vida morta e inferior, prenhe de ritmos inaugurais e subterrâneos. Pântano de significações, o que queremos dizer não se sequencia em sombras comunicáveis: «Onde começo a minha história, se só existe quando me interrogam?» O poema, ao desbravar, começa por interrogar, depois centra na sua época a questão do mérito e da derrocada do mérito: a eternidade, o intemporal, a política concretizam-se numa moda. Pode ser a mafia, a homeopatia, mesmo a engenharia fiscal, tudo supõe um articulado de valores consistente no contexto de um brando pugilato de antropólogo contra a torre Eiffel. Porque a política supõe um ideal amoroso, os cidadãos agrupando-se em violentos futebóis, disporem-se pelos vetores do ciúme; a política nunca perdoa a confusão dos aquiescentes que se enganam nem dos que perdem imaginando o abandono e vinganças. Há sempre efeitos sistémicos na nossa vida e, se estivermos alerta, os olhos da lua desligam-se da opressão da memória, as configurações restringem-se, nem tudo é possível nem sequer com alguém que encontrámos. Já não é preciso levar as coisas às últimas consequências, basta uma versão plausível que esfuma o rosto do anjo, o autor aparece e o leitor toma-o a sério porque não tem alternativa. Que tem de melhor para acreditar?, também não é caso para se tornar mórmon ou testemunha de Jeová. Assim recria uma paz funambulesca ou uma paz telescópica ou apenas dessemantizada que ocupa a verdade com uma esmola recusada. Paciência. Barriga cheia.