Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

O AR DE FAMÍLIA  

É preciso observar cuidadosamente os próprios sonhos. Eles mostram-nos uma engrenagem que liga o passado mais primitivo (até o anterior ao ser e ao pensamento), ao futuro mais distante (até àquele que já não nos está reservado). Os sonhos irradiam de um livro comum, tal como os outros órgãos do corpo, por isso, eles continuam-se de noite para noite, eles completam-se como um teatro que não sai de cena, as personagens juntam-se como se todas se conhecessem e tivessem razões umas contra ou a favor das outras. Observando cuidadosamente os nossos sonhos conhecemos o que silenciámos aos nossos filhos ou o que nunca escreveríamos num poema nem é aludido nas nossas ladainhas aos deuses dos tempos. Como se os nossos cérebros integrassem zonas específicas de silêncio das quais irradia, como poderosas nuvens de fumo, aquilo com que entretemos as conversações. O argumento parece uma simples analogia espalhafatosa, mas apela à unidade comum do humano (o que é um bom princípio de correção política), não tanto a partilha de mitos constitutivos do pensamento (logo, constrangedores, limitativos), mas da existência de aterradoras zonas de vazio, sempre as mesmas em todos os tempos em todos os lugares e circunstâncias, sempre o mesmo calafrio perante uma imagem que imaginamos esfacelada, decomposta, esvaída, mas que nunca ninguém viu – molde de uma verdade negativa. Nem sequer se pode dizer que seja invisível e exista, apenas que nos faz sonhar os mesmos sonhos, temer os mesmos desenlaces, sobretudo, que nos faz falar de coisas que conhecemos e partilhamos como se tivéssemos tido uma infância comum, nascidos de uma mãe universal e intemporal que dá o mesmo a todos os filhos, também os mesmos terrores e o mesmo modo de pensar o que não conseguimos pensar. Por vezes aborrece-nos essa matriz em que reconhecemos em tudo o que vemos de novo e nos devia surpreender e alegrar, um ar de família como de um sonho já sonhado ou como, numa interpretação vanguardista da maternidade, encontramos ainda a Vénus de Willendorf.

ABY WARBURG  

Em geral não damos muita importância às virtudes dos outros, tomamo-las como atributos vulgares como a teta da vaca em que todas as pessoas mamam. Se alguém é generoso connosco, logo pensamos que apenas recompensa os nossos méritos, que os reconheceu e que o prémio que nos confere é inferior ao que mereceríamos. Da justiça dizemos o mesmo, que é um direito dos desfavorecidos e uma obrigação dos mais fortes; da temperança e da prudência, que são falta de coragem, até a sabedoria podemos tomá-la como presunçosa ou exibicionista. E temos razão: para cada pretensa virtude podemos imaginar um encadeamento psicodinâmico de situações inescapáveis que tornam as pessoas inexoravelmente bondosas, prudentes, justas, sábias, etc., de modo que, assim, desfazemos o mérito dos virtuosos e damos crédito às vítimas, recipientes das suas virtudes. De certa forma, a virtude contesta o estado que é o grande virtuoso por excelência, o grande distribuidor de justiça, de segurança, das certezas que tornam supérflua a sabedoria a ponto de podermos dizer que um estado eficaz tornaria ridícula a bondade, desnecessária a prudência, descabida a generosidade. Diríamos a sabedoria, um assunto que nos distrai, mas pertence a diletantes sem um interesse prático em coisa nenhuma nem virtudes a defender, sofistas que falam das virtudes como de um desporto que amam, mas não praticam. Na verdade, para a maior parte de nós é preciso algum desprendimento para ser virtuoso, é preciso não ter muito a perder com cada virtude que apregoamos. Buda era príncipe e largou tudo. Aby Warburg era herdeiro de banqueiros e largou tudo. Mesmo doente procurava uma forma de sabedoria residente nas formas estéticas como nas outras, indiferentemente. «Mas é isso a doença», diziam alguns. Não, é uma virtude.