Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

TEMAS PARA A MESA DO CAFÉ  

A democracia aperfeiçoou-se penosamente. Tenta envolver cada vez mais pessoas. Pede-lhes a opinião e espera que lhe respondam depois de terem pensado o melhor possível. É difícil ter uma boa opinião sobre a democracia. A maior parte das pessoas limita-se a dizer que é o menos mau dos sistemas o que já é uma boa razão para a defenderem tenazmente. O voto estendeu-se a quase todas as pessoas e mantém-se ainda nas pessoas que já não são capazes de formar uma opinião. Às portas da morte ainda se vota, quando já não se reconhece a própria casa ou os próprios filhos vota-se ainda; quando se enlouquece ou quando se mistura alhos e bugalhos, vota-se também, mas problema sério da democracia são a maioria das pessoas que são capazes de pensar e cuja opinião não é a melhor possível: 1) seja porque não possuem a informação relevante (não a procuraram ou asfixiaram-se com dados erróneos ou em quantidade improcessável); 2) seja porque confiaram num qualquer líder de pacotilha e papagueiam o que lhe ouviram sem nunca pensarem os problemas à luz dos seus interesses; 3) seja porque, embora informadas, não fazem o esforço de tirar conclusões; 4) seja porque votam por preconceitos e afinidades, ou 5) por interesses de curto prazo ou de vistas curtas. Acresce que os estadistas, conhecendo o comportamento do eleitor, amplificam este défice democrático escolhendo as gravatas que o público aprecia, fazendo afirmações com que a maioria concorda, explicando os problemas cujas soluções já forma implementadas, tudo isto entoando a voz como histriões à frente do espelho enquanto lavam sumariamente a cara. Portanto, se a democracia se alimenta de boas opiniões e o que obtém são jogos maciços de sedução entre estadistas e eleitores madraços, resulta que as opiniões seguidas são as de uma maioria que, deliberadamente, decide sobre o que desconhece e, para gerir os seus interesses, elege cidadãos que tentam fazer boa vida jogando este jogo. Hoje ninguém propõe construir uma cidade de raiz, por exemplo, abandonar Lisboa com as suas encantadoras sete colinas aos arqueólogos e aos turistas e reconstruí-la num local plano, eventualmente conquistado ao estuário do Tejo que é enorme e serve a pouco. Quem decidiria construir uma «Nova Lisboa» como no passado, ou as várias Alexandrias de Alexandre o Grande? Desagrada-nos, hoje, tal concentração de poder numa pessoa ou numa função, por isso, já não construímos nada como as pirâmides de Gizé nem como o Convento de Mafra, mas é difícil aperfeiçoar a democracia.