Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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TERCEIRA IDADE COM E SEM LAGO DOS CISNES

Uma flor, pronunciá-la num sorriso, definir o centro do mundo antes de a desfolhar e esquecer o amor numa versão não-social. Despedimo-nos de uma egosfera de culpas e falsas responsabilidades. No futuro, muitas das coisas essenciais tornar-se-ão facultativas, não só a natureza, mas o próprio progresso: milhares de satélites com a sua inteligência muito viva lutarão pela não-artificialidade numa gadgetosfera de impulsos onde Freud errou os cálculos e se extinguiu, onde a engenharia da criação se escapa de Darwin e segue um propósito extra-mental quase coletivo, onde os grandes tratados de antropologia são catálogos de neuropróteses que, verdadeiramente, reconstruirão o humano. Nem dentro de cada cérebro as distinções e os propósitos são nítidos. Tudo é, apenas, eficiente. O ponto onde o individual se perde no sistema, na célula, no órgão, num simulacro da pessoa, em particular o «eu», no seu lento surgimento, leva-nos ao paradoxo do sentido: inventar os modos da guerra, os temas do delírio, as forças latentes de uma geofísica cultural – leva-nos a recriar uma antecipação científica niilista onde a angústia encontra soluções melodramáticas e subsiste. Uma flor: quisemos, apenas, reavivar-lhe o brilho para poder, agora, empalidecer em paz, sem aludir ao centro do mundo nem a um desespero que nos faz acordar com pesadelos de indefinível absurdo. Que todas as palavras adquiram um tonitruante silêncio. Quando interrogadas, que as suas prescrições falhem, que a mente seja vento sem teoria nem rumo. O espelho implode – não se percebe se só os nomes ou também as ataduras, os sismos cíclicos que interrompem a compreensão, os anúncios frustes. Desistimos das titânicas exigências à superfície dos mistérios. A musculatura do anjo aplicada no sopro de significações muito densas requebra-se na pura energia da contemplação: trompas, piano, cordas: a percussão cresce ritmando um todo impossível de dominar – de qualquer modo, os cisnes pronunciam as flores com outra doçura: o erro e a verdade desvirtuam-se em favor de uma solução que nesse momento nos reúne e parece conveniente. O sorriso que nos oferecemos reconstitui, na civilização que recordamos, uma derradeira imagem do que fomos, abraçados, siameses soltos; ainda assim, ligaram o taquímetro e pagamos a conta. Mas o que determinou esta liberdade?