Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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termodinâmica do envelhecimento

Nunca pensámos no envelhecimento até depararmos com a 2ª lei da termodinâmica. Passámos a vida, um dia de cada vez, tentando não complicar os raciocínios existenciais, devorando papas e biberões, desde criança, sentindo a fome e assimilando – assimilando livros e criando hábitos e tudo isto com método científico, ficamos com a impressão do crescimento ser em prole da ordem social e a favor de uma melhor organização universal. O melhor de nós desmultiplicou-se apaixonadamente noutras vidas – fizemo-lo embora nunca tenhamos pensado numa relação explícita com a ordem física do universo como se cada humano fosse mais uma estrela cadente ou um cometa, astros desorbitados e rebeldes, ou estrelas anãs devoradas por um buraco negro. Desde criança o sistema confronta-nos com uma ordenação das coisas: domesticámos o cavalo e o cachorro, ensinámos o papagaio a falar e o símio a não roubar bananas e isso, que é a ordem pública, combate a entropia social e fá-la diminuir. Mas, pelo contrário, incita-nos, também, a ser criativos, pró-ativos, empreendedores; a lutar por aumentar o número de oportunidades que as circunstâncias nos oferecem, a explorar novas configurações das coisas o que corresponde a aumentar o número de estados possíveis para onde as coisas nos poderão arrastar e isto significa aumentar a desordem do sistema. Dizemos que amamos a liberdade (por vezes de uma forma bastante libertina), mas não temos consciência que a liberdade aumenta a indeterminação das nossas vidas e, por isso, muitos sistemas a restringem muito. Quando decidimos casar, enveredamos pela equação S=f(A-xD)(W-yD), em que S representa a pessoa escolhida, A representa o estado de celibatário e W, um estado indeterminado ulterior gerado por D (um agente anónimo que pode nunca surgir) nas circunstâncias x e y. Por outras palavras, acreditámos na felicidade e que seriam favoráveis as suas contingências, mas acreditámos, também, numa reversibilidade geral das decisões a qual se revela, agora, só superficialmente existir, no sentido em que o divórcio não provoca a reversão da flecha do tempo a uma prévia ingenuidade adolescente. Contudo, perante a 2ª lei da termodinâmica, fazemos um saldo positivo do caos casamenteiro: dessa desordem resultaram filhos que são formas organizadas de vida que contrariam a mencionada lei, são mais ordem, mais vida, mas, também, mais desordem pois cada um tenta maior liberdade (ainda que nos desobedecendo e forçando o sistema tanto quanto podem). Agora que pensamos na 2ª lei da termodinâmica, lembramos que a nossa farta cabeleira tem regredido, que a fluência do raciocínio ganhou prudência e peso, que a atenção se desfoca como se sonhássemos sem acreditar em nada, que as pernas não voam nem os braços abraçam como antes. Dizemos que aumentou a entropia do corpo, que este já não é capaz de lhe opor a pujança titânica da vida por muitos livros que leia, por muitos poemas que escreva, por muitas árvores que plante e nem o sujeito S, nem o sujeito D, nem ninguém poderá ajudá-lo o suficiente.