Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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uma definição original de «amor»

Não vamos continuar a tentar definições originais de «amor» como se faltasse ainda dizer algo relevante. Amando sentimo-nos transportados para fora da nossa quotidiana mesquinhez, mas já reconhecemos que essa exaltação pelo outro não é explicável pelos méritos do outro; é o funcionamento de um sistema que usa a vulnerabilidade humana ao sublime. Podemos, no lugar de definir, inventariar a ação que o amor pode conter (desde logo excluindo o amor-próprio que é um uso abusivo de «amor»). Assim, teríamos: 1) «Escrever». Inscrever um coração e uma seta no tronco de uma árvore ou um poema enaltecendo o que o outro nos faz sentir, cegamente atribuindo-lhe a nova beleza que vemos nas coisas (pois que a escrita precisa de errar). 2) «Compreender» e «nutrir»: compreender que «compreender» e «nutrir» nutrem todas as transações; também que uma disposição a compreender permite separar o aceitável do repulsivo pois que tudo é compreensível, mas nem tudo o que é compreensível é aceitável. 3) «Dar»; dar não apenas materialmente, mas como expressão e como criação; envolver-se num altruísmo a dois inesgotável como uma máquina com engrenagens acopladas, cada roldana cedendo energia à outra. 4) «Ouvir embevecidamente» os poemas do outro deixando para mais tarde uma terna micropiedade pelo seu mau gosto. 5) «Prometer». Prometer o melhor de si contando com uma versão otimizada do nosso eu e que o mundo corra de feição (pode não ser plausível). 6) «Fundir». Efeito do calor semântico nas auto-descrições do «nós». Risco: desaparecimento do riso. 7) «Controlar» o outro seja engradecendo-se de modo a não lhe deixar espaço à vontade; ou taurinamente investindo contra as suas defesas fragilizadas pelo amor, ou denegredindo os méritos que outrora gabou. A partida do outro ameaça-o porque a admiração é precária. 8) «Excitar/agredir/aliviar», um trinómio que vícia como o boxe. 9) «Agredir/expiar», um binómio que vicia como uma condenação a prisão perpétua. 10) «Oferecer/precisar», mas um oferecer interessado em gerar cobiça, uma cobiça que prostitui e quanto mais violenta maior a cobiça, maior a oferta, maior o vínculo. 11) «Passar o tempo com». Viver com o outro em substituição de viver consigo próprio – o outro tematicamente vital. 12) «Partilhar» – o outro representa a parte da humanidade que gostaríamos que concordasse com as nossas opiniões. As ideias da moda baralham a nossa correção amorosa: mulheres e homens só na velhice alguns estabilizam uma pose, só quando desistem de ser super-heróis e glamorosas vampes são capazes de uma extensiva generosidade, felizmente para eles esquecem ou fingem ignorar os ridículos papéis que desempenharam, mas é quando procuram uma definição própria de «amor».