Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

uma profunda descrição da consciência moral

A paciência tem ou não tem limites? Esta como muitas outras questões não tem uma única resposta – é quando invocamos o atributo «sensível ao contexto» que, neste caso, tanto pode significar: 1) a tolerância para com muitos aspetos da humanidade que são intoleráveis, 2) um agudo sentido da economia de esforços que seleciona perspicazmente os assuntos que não merecem ser afrontados, 3) uma lúcida avaliação das forças antagonistas, da legitimidade dos seus interesses mesmo que se oponham ao que antes defendíamos, 4) um agudo sentido do paradoxo como se a estupidez tivesse sempre um desenlace cómico, ou fosse cómico o absurdo, 5) uma timidez que retira primazia às próprias razões por insegurança quanto à sua fundamentação, 6) generosidade para com as intenções alheias ainda que negativamente avaliadas, 7) uma absoluta descrença de que a própria oposição produza algum resultado significativo, 8) medo da agressividade do outro face à oposição que se lhe faça, tanto mais violenta quanto mais fundamentada ela for, 9) medo da própria agressividade desencadeada pela posição do outro avaliada como idiota, 10) e muitos outros «contextos». Portanto, podemos sustentar que a paciência tem limites e a nossa reação depende da gota de água que transborda o copo. Mas o que transborda do copo não é só a gota de água que o fez transbordar, é uma quantidade de água eventualmente superior à que existia no copo o que, mais tarde, nos fará reconhecer que mais valia ter paciência ou iludir o confronto com alguma habilidade. No caso de Job ignoramos qual o contexto, mas provavelmente teríamos que acrescentar uma 11) razão contextual que contemplasse a relação de amor/temor para com um deus difícil. Nós apreciamos deuses pacientes – com uma paciência ilimitada como nós temos para com as crianças, e não sensível ao contexto, i.e., máxima em qualquer contexto. Não se trata de a merecer, mas dela lubrificar a nossa proximidade a Deus a ponto de, por vezes, escorregarmos e cairmos nos seus braços, outras permitirmo-nos as maiores javardices apenas porque perdemos o medo.