Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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UMA VOZ NA MONTANHA À BEIRA DE UM LAGO PENUMBROSO

«Tranquilo é o fundo do mar que trago em mim; quem adivinharia que oculta monstros divertidos?» Assim dizia Zaratustra na voz de Frederico Nietzsche. E continuava: «É humano fecundar o mundo. Cada pessoa sonha com um método próprio e o mecanismo da vida corrobora-a. É um quebra-cabeças. Aceitamos as leis da lua e do seu negativo, o esperma, como o sopro que anima os jardins submersos da mente». Obceca-nos a vertigem do sub-humano (definimo-lo apenas ad hoc). Depois, irrompe na família a ordem artificial dos aquários, assim, escapamos de uma reprodução caótica. Como a vegetação das falésias cresce na adversidade dos ventos, praticamos o rigor metafísico da parcimónia sem escaparmos dos seus dilemas tabus. Porque a família é um organismo, a cidade é um organismo, o mundo é um organismo; nem a linguagem interseta o que da família ao mundo é irracional, mas é com ela que atravessamos a ponte dos horrores. Alguns de nós petrificámos em posturas caricatas, mas não é isso a irracionalidade, são meros efeitos. Perguntaram-lhe se ainda achava necessário invocar as tramas do Olimpo ou bastaria colocar alguma ordem no passado, viver ausente com as coisas todas na cabeça ao mesmo tempo. «É necessário ser o sótão da montanha, para o bem e para o mal, reconsiderar o que por lá existe abandonado porque os caminhos divergem num ponto invisível». Muito assertivo: «Nunca podemos desistir». Os heróis podem desistir, abusar da sua sobre-humanidade ou troçar dela num jogo sem regras. Na arte, os filósofos não se fiam, não esperam dela qualquer indicação, nenhum conforto nem uma esperança, vaga que seja. Não a olham. Os cínicos dizem que a poesia põe em marcha a operação da verdade e ficam de longe observando os poetas estatelarem-se no fundo dos abismos. Apenas da natureza e da consciência extraem os seus absolutos. Por isso falharão sempre como o mensageiro que esqueceu a morada e tem no bolso a solução do problema. Pluralidade de mundos concretos – riem-se das soluções complexas, riem-se dos artefactos e riem-se dos deuses que escrevem o destino. «Riam-se, também, dos sarcasmos de Zaratustra, riam-se do vosso riso e do vosso medo». Curar uma construção mal negociada, é como descobrimos o sentido. Para isso precisamos desesperadamente de um interlocutor. Interiorizamo-lo e passamos o resto da vida no psiquiatra aferindo o comportamento. «Hoje, não são admissíveis desvios nem libertinagens ao modo de Frederico Nietzsche», diz Zaratustra na voz de Frederico Nietzsche, e continua: «Nascemos no paraíso, ensinaram-nos, mas expatriaram-nos para as zonas translúcidas do presente que é onde a mente funciona, no masoquismo da cruz uma humanidade incessante. Que outros deuses invocar?» O inconsciente são os incestos de trinta mil anos de linguagem: «Doentes do pudor, quantos messias me seguiram? as lavagens gastam-lhes a pele até à carne do tempo que, carnívora, se dessedenta». É onde o culto do mal e do bem se juntam e anulam numa ampla democracia sabiamente manipulada. O que se ignora destrói-se. É humano (a voz off confunde-se com a de Nietzsche): «Tento conservar no mofo racional o que me conforta; libertar as zonas de contaminação por deuses que, sem escrúpulos, venço, pois que portas abre esse vento imóvel?», respondendo: «Só esse vento arranha as árias que me sustêm. Olho-me como a uma engenharia de pequenas luxúrias num lugar inconsensual ou um simples megafone a rodopiar ao contrário no bailado democrático». A voz esvoaça como se dentro de si alguém voasse, num pleno repouso a luz existisse, no orgasmo dos nomes algo se passasse. Qualquer filólogo vende raciocínios que contornam os pontos dolorosos do crânio. As teorias já não servem para nada. As coisas humanas foram criadas para substituir e a injustiça é uma morte extemporânea: uma avalanche de culpas posta a zero institui o falso na armadura da verdade. Do meu refúgio contemplo a paisagem silenciada. Zaratustra tira-me a palavra: «Não vos prometo nada, nem vos direi o valor da palavra. Deixo-vos uma teoria da glória, um antídoto para a violência como se, sem uma noção de justiça, a revolta acabasse – pelo puro embrutecimento». Aproximamo-nos do fim: os elementos tornaram-se inlocalizáveis em qualquer sistema referencial. Nem sabemos se ainda contam ou se novas partículas criarão novos poderes. Nietzsche: «Os super-homens são, hoje, curandeiros das hermenêuticas finalistas. Cobiçam a beleza enigmática do meu silêncio, contudo, as suas metáforas cibernéticas suplantam a beleza das minhas que transformaram a vida e instantaneamente mudaram as atitudes civis». O coro popular faz-se ouvir: «Queremos terapeutas cheios de virtudes no teto da paisagem, que verdades polifónicas esfumem o contorno do pecado, que cada interpretação seja mais que uma nuvem, cubra o Sol e que ninguém enumere as impossibilidades. Assim regressaremos ao nada do alívio navegando numa mente inesperada». A estrada e a tempestade fundem-se numa mecânica de sopros que exige simplicidade. O farol do promontório submerge num pântano morto. Nesse lusco-fusco, nomes irreconhecíveis recompõem as cenas: Zaratustra no início da viagem, as intenções dúcteis de Nietzsche migrando nas fotografias que se justapõem instante a instante e desfocam. Além, uma densa zona apaga-se impercetivelmente. Depois, um passado cerra-nos num palco sem regresso; apenas instantes de um indistinto desejo de falar. A mente escavou uma ideia desabitada ou demasiado perfeita. Qualquer homem a supera.